terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Sábio do Sertão

Sertão é onde o sol cisma e Deus não se apressa. Lá, as noites têm tinido de grilo e chocalho de cobras. A mula-sem-cabeça vaga pelos campos. O saci cavalga uma perna só. Até o sapo é um príncipe pachola que sonha com núpcias e céus. Esse é o sertão que emerge entre fogueiras e quentões. Mas há um outro sertão — tinhoso, labirinto de homens, desenredo do mal. É desse sertão, país de almas que vivem dores de carne e osso, que falam Guimarães Rosa e Bernardo Élis. Um, nos píncaros da metafísica; outro, nos baixios da sociologia. Talvez, por isso, Carmo Bernardes resolveu desvendar a seu modo o Grande Sertão e descobriu sua terceira margem — aquela que não é de Deus nem do Diabo, mas do homem, amálgama da natureza.

É dessa terceira margem do sertão que ele trouxe Jurubatuba e Reçaga, Nunila e Ressurreição de um Caçador de Gatos, entre muitos outros livros e artigos. E chega com um novo romance, Santa Rita, que acaba de ser lançado pela Editora da Universidade Federal de Goiás. O livro tem como tema a fundação da cidade que lhe empresta o nome e faz a simbiose entre a política e a paixão. Carmo não esconde que é um insatisfeito permanente com sua obra: “Depois de cada livro, sempre fico com a impressão de que escrevi apenas um terço do que deveria escrever”.

O escritor, que nasceu na cidade mineira de Patos de Minas, completou 80 anos no sábado [2 de dezembro de 1995] , quando lançou Santa Rita no Centro de Tradições Goianas. Há pouco mais de dois meses, foi submetido a uma cirurgia para implantação de um marca-passo, depois de mais uma complicação cardíaca motivada pela doença de Chagas, que contraiu há muitos anos em Damolândia. Apesar dos efeitos da cirurgia, ele renovou o sorriso, que andava meio macambúzio em seu rosto. O motivo revela uma ingenuidade de menino grande: “Não sabia que fosse tão querido em Goiás” — confessa, encabulado com a imensa quantidade de telefonemas e cartas que recebeu desde que se internou.

Carmo Bernardes mora numa casa modesta no Setor Pedro Ludovico. Na varanda dos fundos, impregnada de uma atmosfera rural, um gato mata a sede no tanque de roupa, um macaco faz traquinagens na corrente e os cães se interpõem entre o dono e a visita. Um deles, de largas orelhas e pêlos fulvos, aboleta-se na cadeira vazia, como se quisesse participar da conversa. A fala de Carmo, entrecortada pelo canto insistente de uma galinha-d'angola, sustenta a firmeza das idéias. Mas o rosto magro e os passos miúdos denotam os anos e os dias de hospital.

Vendo-o entre seus bichos, inclusive os beija-flores que atrai com os artifícios da cidade, é possível pensar que Carmo Bernardes se trata de um simples homem da terra. Mas engana-se quem o confunde com uma força telúrica. Ele também é um animal urbano, da espécie descrita por Aristóteles. Ou um poeta, que poderia dizer como Camões: “Não me falta na vida honesto estudo, com longa experiência misturado”. Prova disso é que já escreveu romances, contos, modas de viola, ensaios ecológicos e testamentos de Judas — graças à sua vida de pedreiro, carpinteiro, pintor de paredes, jornalista, dentista prático e até procurador-com-aspas, profissão que ele explica com meio-sorriso.

Em sua obra, o sertão não é bucólico, nem trágico; não é cenário, nem pretexto. O sertão é sertão. Por ele, o homem fala e o escritor se cala e vice-versa. Mais que ninguém, Carmo Bernardes tem o direito de apelar para o lugar-comum e afirmar que escreve por transpiração. No seu caso, não se trata de uma frase de efeito, mas da verdade de um fato: o sertão não inspira sua obra — é metabolizado por ela. É isso que faz dele uma simples força da natureza para a crítica evolucionista. O que não é verdade. Como ele mesmo ensina aos críticos incautos, a arte não evolui — ela se superpõe.

Carmo Bernardes tem sedimentação variada. É rural e urbano, singular e plural. Sua obra sabe à terra molhada e picumã, mas ele a escreve num computador 486, desde que aposentou a velha Olivetti — uma relíquia que ocupa lugar especial em sua sala. A linguagem da arraia-miúda do sertão perpassa sua obra, mas ele não se rende ao preconceito dos sociólogos, que se esmeram num foneticismo chulo cada vez que tentam reproduzir o linguajar caboclo. Os costumes alimentam sua ficção e seus ensaios, mas ele não dispensa a imaginação e a ciência. Só que sua imaginação é feita de memória, e sua ciência compõe-se de intuição. Em tempos de antanho, esse amálgama tinha um nome — sabedoria.

(Publicado no Jornal Opção, Goiânia, 1995)