quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Goianos no vestibular: da causa própria à avacalhação

Ao propor que lista de livros do vestibular não inclua apenas goianos consagrados, mas também premiados e novos, escritores confirmam que, para eles, escola é mesmo camelódromo

(Leia antes o artigo Literatura Goiana: A Estética do Ressentimento)

Certa vez, recebi a visita de uma escritora goiana. Vinha reclamar de um artigo meu, em que três ou quatro linhas eram comedidamente desfavoráveis a ela. Não havia nenhum sentido para a reclamação, uma vez que a minha crítica nem chegava a ser crítica, era um reparo extremamente respeitoso, condizente com o que eu já havia escrito antes sobre sua obra. Mas o que essa autora exigia de mim era que eu não fosse um crítico, mas um camareiro — simplesmente queria que eu soubesse de uma disputa familiar a respeito de seu novo livro. Ela e um parente seu tinham explorado o mesmo assunto, de forma independente e rival, e ela, entendendo que o parente tinha agido de má-fé, ao também publicar um livro sobre o tema em que julgava ter monopólio, queria estender aos jornais da cidade o anátema que provavelmente já tinha tentado impingir-lhe em família e entre amigos.

Por mais que eu lhe tenha explicado que essa disputa de família em torno de um objeto de estudo não me dizia respeito como crítico e que o meu objeto de análise só poderia ser os livros já publicados, o dela e o do parente, sem levar em conta os antecedentes genéticos de cada um, a escritora não quis me entender. Ainda hoje deve achar que agi de má-fé e virou-me definitivamente a cara. Bastaram essas três ou quatro linhas desfavoráveis para que se esquecesse inteiramente de um artigo de duas páginas, em que eu lhe elogiara não só um livro, mas quase toda a sua obra até então publicada. Obra e autora, aliás, que eram completamente ignoradas pela imprensa local. Mais grave é que, na época, praticamente desconhecido nos círculos intelectuais goianos, ouvi desta escritora, por telefone, a seguinte confissão: a minha resenha sobre a sua obra tinha sido tão bem escrita, de nível tão admirável, segundo ela, que uma outra escritora goiana, sua amiga, achou que ela própria é quem tinha escrito o texto, mesmo o artigo estando nitidamente assinado por mim.

Foi nesse dia que comecei a sentir pena da literatura goiana. Fiquei me perguntando como é que uma escritora — ancestralmente consagrada — se mostrava incapaz de ler e compreender uma simples matéria de jornal, imputando à própria autora de um livro uma resenha sobre ele escrita na terceira pessoa e assinada por um jornalista. E o que é ainda mais grave: mesmo quando alertada para essa questão, a escritora consagrada disse: “Mas claro que foi você quem escreveu, fulana. Jornalista não sabe escrever”. Quando digo que isso é ainda mais grave, não estou pensando apenas no desconhecimento que a frase revela da profissão de jornalista (historicamente, um celeiro de grandes escritores), mas no próprio caráter moral subjacente a ela. Se essa escritora achava normal uma colega escrever sobre si mesma e publicar o texto em terceira pessoa, ainda por cima assinado por um jornalista, então, é porque a literatura goiana não passa mesmo de uma cabal impostura.

Foi aí que a minha pena da literatura goiana começou a se transformar em desprezo. E só não se transformou em desprezo definitivo — como se verá ao longo deste ensaio — porque, naquele dia em que a escritora veio reclamar das minhas críticas, um outro fato recompôs a piedade inicialmente suscitada. Ao se despedir de mim, por volta das seis da tarde, ouvi da escritora — uma professora aposentada, quase avó — que precisava chegar em casa antes do marido para preparar-lhe a janta. Não pude deixar de sentir uma profunda compaixão por aquela mulher indiscutivelmente talentosa, potencialmente capaz de vôos lúcidos, mas cerceada pela condição feminina, que fazia dela não uma intelectual autônoma, mas uma extensão do marido, mesmo depois de reconhecida em jornais e livros.

Esse fato que acabo de relatar não é uma idiossincrasia — é um paradigma. Revela a gênese da cultura goiana e aclara o descompasso que ela continua apresentando em relação à cultura do país. Num artigo publicado em novembro de 1962, Gilberto Mendonça Teles já dizia que, apesar de Félix de Bulhões e Hugo de Carvalho Ramos, a literatura goiana só começou a existir verdadeiramente a partir da Revolução de 30. E, depois de apontar o “isolamento geográfico e espiritual do Estado”, a “imaturidade político-administrativa” e a “preocupação primária de nossos antepassados” como principais causas desse aparecimento tardio da literatura em Goiás, Gilberto Mendonça Teles — quase 20 anos depois de Bernardo Elis ter publicado Ermos e Gerais — ainda sustentava corajosamente: “É bem verdade que as causas acima apontadas impedem a existência de maiores valores intelectuais, condicionando assim uma literatura vacilante e sob certos aspectos indefinida”.

Na época, Gilberto Mendonça Teles via com esperança o surgimento do “ambiente universitário” em Goiás bem como a proximidade com o Distrito Federal, mas a história demonstra que sua esperança não se concretizou tão rapidamente — só agora, passados 40 anos de sua fundação, é que a Universidade Federal de Goiás começa a trazer para o Estado uma visão de fato universal do mundo — graças, inclusive, aos doutores que vieram de fora. Enquanto a USP foi fundada por intelectuais, com uma visão progressista da educação superior, calcada numa inequívoca associação com o desenvolvimento socioeconômico de São Paulo, a UFG nasceu como um quintal das atrasadas elites locais, que, ao criá-la, não pensavam exatamente no desenvolvimento do Estado, mas na economia doméstica — o quanto iriam poupar deixando de mandar os filhos para fazer um curso superior no Rio de Janeiro ou Minas Gerais.

E se praticamente toda a Universidade Federal de Goiás surgiu como um quintal das elites, o caso do Departamento de Letras da UFG, hoje faculdade, é ainda pior — ele era a própria camarinha das famílias nobres, o lugar onde as mulheres e filhas das elites locais iam coroar suas prendas domésticas, misturando acrósticos com ponto-cruz. Foi essa origem familiarmente tradicional do curso de letras que fez dele um espaço aberto para o escritor goiano desde o primeiro ano de vida da Universidade Federal de Goiás.

Quando a professora, crítica e escritora Darcy Denófrio, em artigo publicado no Popular de quinta-feira, 2, afirma que o espaço para a literatura goiana na UFG foi uma “lenta conquista”, ela simplesmente despreza os fatos históricos. A Imprensa Universitária, ancestral da Editora da UFG, já nasceu, junto com a universidade, publicando livros da literatura goiana e sobre ela, a partir de um grande concurso para os escritores locais, em todos os gêneros, criado pelo então reitor Colemar Natal e Silva, em 1962, apenas dois anos depois de fundada a UFG. O romance Rio Turuna, de Eli Brasiliense (um dos premiados neste concurso em que Bernardo Élis recebeu apenas menção honrosa), foi publicado pela própria UFG.

Darcy Denófrio pode alegar que não está falando do apoio institucional à literatura goiana, mas de sua inclusão como objeto de estudo universitário, fato que, segundo ela, só se deu em meados da década de 70, por iniciativa de Moema Olival, institucionalizada a partir de meados da década de 80. Ainda assim, trata-se de um interesse extremamente precoce pela literatura local — sem similar nas grandes universidades brasileiras — e que só se torna possível quando o paradigma cartesiano da universalidade do conhecimento começa a ser questionado pelos novos paradigmas da ciência contemporânea, abrindo espaço para os estudos culturalistas, calcados em particularidades regionais. Na USP, por exemplo, aquele que viria a ser um dos maiores críticos literários da língua portuguesa — o professor Antonio Candido — só pôde chegar à literatura pelo caminho da sociologia, mesmo assim, depois de passar pelos cursos de medicina e direito, por imposição do pai, que não via futuro prático na filosofia, então arcabouço das demais ciências humanas.

A literatura brasileira era tão pouco levada a sério como objeto de estudo acadêmico (algo que só viria a ocorrer na década de 60, a partir de Afrânio Coutinho), que Antonio Candido jamais tinha pensado em estudá-la — seu interesse era a literatura francesa e só se pôs a escrever os clássicos que escreveu por força de um concurso e de um contrato com a Editora Martins. É o próprio Antonio Candido quem revela esse escasso interesse pela literatura brasileira, numa histórica entrevista à revista Ciência Hoje, em junho de 1993: “Obrigado pelo concurso e pelo livro a entrar fundo na literatura brasileira, desenvolvi em relação a ela um interesse que não tinha, embora tenha sido sempre leitor normal de nossos autores. Mas na minha escala de valores os franceses, depois os ingleses, estavam não só muito acima, como me atraíam muito mais”.

Ora, se três séculos depois de Antônio Vieira e Gregório de Matos, a própria literatura brasileira, com um Machado de Assis à frente, demorou a ser considerada digna de atenção acadêmica, por que a literatura goiana, muito mais incipiente, já quer se tornar canônica nas universidades? E o que é mais grave, por que quer se impor como palmatória estética até mesmo a alunos e alunas do ensino médio? No pseudodebate que se travou até agora sobre a inclusão de livros goianos nos vestibulares locais, essas perguntas sequer foram feitas, quanto mais respondidas. Lamentavelmente, os dois professores que até agora escreveram artigos minimamente dignos de leitura criticando a posição da UFG, o historiador Nasr Chaul e a crítica Darcy Denófrio, estão rasgando os respectivos diplomas de mestre e doutor que um dia receberam da universidade. Chaul e Denófrio, como se nunca tivessem ouvido falar em educação, se esquecem que a literatura (brasileira, goiana ou de onde mais for) entra no vestibular como pedagogia não como mecenato.

Falta base objetiva à literatura goiana para impingir-se às escolas nos moldes em que os escritores querem que ela se imponha. E a primeira prova de que os autores goianos não dispõem de argumentos objetivos para defender suas obras é o fato de renegarem, para elas, a classificação de “literatura goiana”. Para que se entenda de uma vez por todas porque é fundamental o conceito de “literatura goiana” tão repudiado pelos escritores locais, tomemos o exemplo do Maranhão dos Ribamares. Ferreira Gullar é maranhense e, em qualquer lugar do país, tem cadeira cativa nas escolas como um dos grandes poetas da língua portuguesa. Logo, se a Universidade Federal do Maranhão resolve adotá-lo em seu vestibular, irá fazê-lo por um critério estritamente estético. Nem vai lembrar-se de sua certidão de nascimento para ver se nasceu mesmo em São Luís. E se a mesma universidade tiver a idéia de substituir Ferreira Gullar por José Sarney no vestibular seguinte? Ela pode dizer que o escritor José Sarney pertence à literatura brasileira no mesmo grau estético em que Ferreira Gullar a integra? Obviamente, não.

Mas José Sarney, dirão os professores maranhenses, não é um escritor tão ruim como o seu mandato de presidente sugere. Talvez esteja no mesmo nível estético de um Bernardo Elis sem ter a mesma importância histórica do goiano. O que fazer, então, para incluí-lo no vestibular sem dar a impressão de que se está preterindo uma infinidade de escritores nacionais muito superiores a eles? Ora, substituindo o critério da universalidade estética em relação à língua portuguesa pelo critério da relatividade estética em relação à geografia cultural. Isto é, reconhecendo o óbvio — que José Sarney, mesmo não sendo um Ferreira Gullar (a quem nunca poderia substituir por critérios apenas estéticos), merece ser lido ao menos em sua terra, como expressão da literatura maranhense. Logo, quando Sarney substituir Gullar no vestibular do Maranhão, ninguém irá questionar o aparente absurdo estético, porque saberão que Sarney não está ocupando um espaço que seria de Gullar, mas, sim, o pedacinho que cabe ao Maranhão.

Essa parábola sobre os dois conhecidos Ribamares (o presidente do Cruzado e o cruzado da poesia) mostra que há de se admitir a existência de uma literatura maranhense — a dos maranhenses menores, como José Sarney — para diferenciá-la da literatura brasileira, que, por acaso, também pode ser feita pelos grandes maranhenses, como Ferreira Gullar. Essa analogia vale para Goiás como vale para todos os outros Estados brasileiros, inclusive, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, onde também ocorre uma literatura provinciana, sem importância alguma no âmbito da literatura nacional, mas que existe e, por existir, precisa ser nomeada, daí a necessidade de se chamá-la carioca, paulista ou mineira, quando acontece de alguns dos seus protagonistas darem as caras fora das fronteiras de seus Estados onde só são conhecidos pelos colegas de coquetel.

Foi esse o critério que norteou a Faculdade de Letras da UFG em sua proposta original, como o professor Mário Frungillo explicou em artigo publicado no jornal O Popular de domingo, 29: “A proposta que apresentamos foi a seguinte: os autores procedentes do Estado, cuja obra já se encontra reconhecida nacionalmente, deveriam constar da lista de referência entre os clássicos da literatura brasileira. Tratava-se de um critério objetivo, que tinha a virtude de evitar a influência de gostos e idiossincrasias pessoais. Obras de autores menos conhecidos poderiam sempre ser discutidas anualmente e, havendo consenso, incluídas seja no item ‘lançamento’, seja no de ‘autor goiano’.”

Em nenhum momento, a UFG quis excluir a literatura goiana do vestibular; pelo contrário, deu-lhe mais possibilidades de inclusão: seja, através dos autores consagrados da literatura brasileira (Hugo de Carvalho Ramos, José J. Veiga, Bernardo Elis e Cora Coralina), seja por meio da possibilidade de incluir um autor menos conhecido da literatura goiana. Se a má-fé não fosse míope, o professor José Fernandes e os demais escritores que o apóiam teriam percebido que a UFG não só preservou a indicação de goianos no vestibular, como até deixou aberta a possibilidade de indicar dois goianos de uma vez só: um pela literatura brasileira em geral e outro pela literatura goiana em particular — repita-se. Mas a proposta acabou rechaçada. Não porque Carmo Bernardes foi chamado de “matuto”, como a imprensa de má-fé e seus áulicos afirmaram, mas porque os professores perceberam que é impossível estabelecer uma hierarquia de valores na literatura goiana — todos são gênios e não há umbigo que admita o contrário. Resultado: tiveram que tirar da lista até os clássicos Hugo, Veiga, Bernardo e Cora.

E a razão desse procedimento aparentemente incompreensível é simples. Sem admitir um conceito de “literatura goiana”, como querem os escritores locais, nem mesmo Hugo de Carvalho Ramos, José J. Veiga, Bernardo Elis e Cora Coralina poderiam constar da lista geral — sob pena de fechar as portas do vestibular para todos os demais autores goianos. Como há um compromisso pedagógico das universidades com os professores do ensino médio no sentido de só indicar para o vestibular livros da literatura brasileira que constam da lista geral de mais de 100 obras, para não prejudicar o autor goiano, restringindo sua possibilidade de indicação no vestibular, a universidade só tinha um caminho — excluir Hugo, Veiga, Bernardo e Cora da lista geral de literatura brasileira. Com a permanência dos quatro na lista geral, e não havendo a possibilidade de uma “literatura goiana”, como advogam os próprios escritores, então, só os quatro poderiam ser indicados, caso contrário, seria quebrado o compromisso com as escolas.

Portanto, todas as reportagens que saíram na imprensa sobre a exclusão de autores goianos do vestibular não passam de falso jornalismo. A literatura goiana não foi excluída do vestibular da Universidade Federal de Goiás, como fez crer o jornal O Popular, ao encampar o protesto infundado das instituições culturais goianas, lideradas pelo presidente da Academia Goiana de Letras, José Fernandes. Mas ao chamar Carmo Bernardes de “matuto”, o representante da UCG na comissão de literatura, o professor Eris Antônio Oliveira (o mesmo que adotou no vestibular um livro com 650 erros) acabou servindo de mote para O Popular intensificar a campanha em causa própria. E não faltou nem mesmo a pena de Nars Chaul para compartilhar o “horror” suscitado pela crítica a Carmo Bernardes. Ora, escritor — vivo ou morto — existe para ser criticado. O professor Éris Oliveira está equivocado ao menosprezar a literatura de Carmo Bernardes, mas não precisa esconder-se feito um criminoso, como se a obra de um escritor goiano tivesse de ser — por princípio — intocável.

Muito menos se pode estender o desagravo a Carmo Bernardes até o ponto do desvario, comparando-o com Guimarães Rosa, como ocorreu na audiência que os escritores goianos tiveram com a reitora Milca Severino Pereira, na quinta-feira, 3. Em face da genialidade de Rosa, Eris Oliveira tem razão — Carmo não passa mesmo de um simplório matuto. Mas em Goiás é proibido fazer esse tipo de comparação crítica sobre qualquer escritor. Província que é, Goiás ainda trata a sua literatura como o “sorriso da sociedade”. Fazer literatura em Goiás — independente da qualidade dela — já reveste o sujeito da condescendência pública. O escritor goiano, por mais incômodo que seja, é sempre suportado com paciência. Como em toda cultura incipiente, onde a arte ainda não se profissionalizou e conserva uma aura de pureza, a sociedade goiana considera todo artista uma inspiração dos deuses encarnada, daí a simpatia com que trata todos os seus artistas.

Exemplo disso, além da literatura, é o artista plástico Siron Franco. Fora de Goiás, Siron é um artista esteticamente iconoclasta, que se acerca do poder com ratoeiras para denunciar a corrupção. Em Goiás, é um artista socialmente acomodado, que não hesita em pintar um feijão numa bandeira para se aproximar do governante de plantão. O Siron-esgar que o Brasil conhece transforma-se no Siron-sorriso tão logo Goiás — com sua tendência à unanimidade — o desarma. Mas essa unanimidade natural — que cerca qualquer artista apenas pelo fato de ser goiano — tem um preço muito alto: ela faz com que um artista do nível de Siron acabe ocupando, na imprensa local, um espaço pouco maior do que aquele que um artista iniciante ocupa. O provincianismo — que confere a todo nascido em Goiás uma certidão de imunidade crítica — acaba fazendo também com que todo artista goiano seja igual perante lei da condescendência infinita.

É por isso que a Universidade Federal de Goiás não tinha e não tem outra escolha: ela não pode incluir nenhum escritor goiano na lista geral dos indicáveis para o vestibular, pela simples razão de que, escolhendo um, será obrigada a escolher todos — o que já não é seleção, mas avacalhação. Foi o que ficou mais do que evidente na reunião dos escritores goianos com a reitora Milca Severino. Além de exigir a absurda inclusão de três ou quatro livros goianos em cada vestibular (cantilena que José Fernandes reverberava feito um monjolo), os escritores deixaram claro que não querem a inclusão na lista apenas dos consagrados — querem que sejam incluídos também os premiados e os novos. Ou seja, todos eles, porque praticamente já não há escritor inédito e não-premiado em Goiás. As benesses públicas já tiraram todos os originais das gavetas. A literatura goiana é uma espécie de realismo socialista — os escritores são, de ponta a ponta, bancados pelo Estado, que premia a obra em dinheiro, manda imprimi-la e ainda dá exemplares para o próprio escritor vender na escola. E, se depender dos escritores, ainda arregimenta os leitores pelo cabresto da lei — como querem fazer agora no vestibular.

É esse livro de custo zero e qualidade negativa que o autor goiano tem a coragem de obrigar um aluno a comprar por 10, 15 ou até 20 reais — auferindo um lucro exorbitante, já que não teve nenhum gasto com ele, a não ser o do tempo empregado na cabalagem literária em órgãos públicos ou nos bastidores de concursos duvidosos. Esse estelionato cultural já está acontecendo com freqüência nas escolas, inclusive públicas. E o que os escritores goianos querem da UFG é apenas a legalização dessa prática imoral, que nada tem a ver com cultura muito menos com educação. Por isso, é deplorável que Nasr Chaul, imaginando-se pós-moderno, afirme que “os vestibulandos devem sim ser considerados consumidores”, reforçando a política mercantil do ensino privado, que as universidades públicas tanto combatem.

Antes de se perguntar aos alunos do ensino médio quanto eles têm de dinheiro para oferecer ao escritor, na compra de seu livro, é preciso perguntar ao escritor o que ele tem a oferecer ao aluno, para sua formação. Entre as muitas funções que o ensino da literatura desempenha na escola — e por extensão no vestibular — estão desde o imediato incentivo à leitura, que auxilia no desenvolvimento das linguagens, entre as quais se inclui a matemática, até a desejada interdisciplinaridade, já que a literatura pode dialogar com todo o universo do conhecimento, desde o imaginário do mundo medieval, inscrito nas páginas de O Guarani, de José de Alencar, até a fenomenologia de Husserl, vislumbrada por Machado de Assis na novela O Alienista.

Mas nenhum livro oferece isso por si só. A palavra no papel é uma literatura em potencial que só se realiza pelo olhar do leitor. Sem a força de milhares e milhares de leituras, ao longo de mais de três séculos, Dom Quixote não teria saltado das páginas de Cervantes, com a ubiqüidade de um mito vivo, capaz de imortalizar seu autor para além da literatura. Sem a leitura que dá vida à escrita, o romance Dom Quixote seria um enclave de mofo para o repasto das traças numa estante qualquer. Cervantes ou Shakespeare são o que são por que foram lidos — louvados e também criticados. É por resistir a esse confronto com a crítica ao longo do tempo que um livro se torna clássico. E só quando se torna minimamente clássico, capaz de alguma perenidade, é que o livro pode ser imposto aos outros — leia-se “alunos” — como leitura obrigatória. Afinal, todo ato de leitura deveria ser soberanamente livre, mas se é inevitável que seja compulsório, então, que o seja com base em razões de ordem objetiva.

É nisso que reside o mais grave efeito dessa derrama de goianos no vestibular. Ela significa a desmoralização da literatura. É inconcebível que um escritor seja adotado em escolas sem que sua obra tenha uma razoável — e confiável — fortuna crítica. Se até a ciência se faz com paradigmas intersubjetivamente construídos pela comunidade científica (já que nem sempre as verdades se lhe apresentam cristalinas e é necessário construí-las), o que dizer da literatura, em que a subjetividade é sempre a essência? Quando se adota um livro de autor goiano não consagrado, a primeira crítica que surge a respeito dele é exatamente aquela encomendada pelo suplemento Vestlivros do jornal O Popular. Ainda que essa obra seja esteticamente uma lástima e só tenha defeitos, o professor contratado pelo jornal jamais irá escrever a verdade sobre ela. Sua pena é de aluguel.

Mas, para o aluno, aquela crítica venal e muitas vezes tola do Vestlivros será a única verdade disponível, já que o autor goiano não existe em nenhum outro livro, a não ser naqueles que ele mesmo publica e na pena desses exegetas de aluguel que escrevem resenhas caça-níqueis por ocasião do vestibular. Daí o inusitado interesse do jornal O Popular em assumir o comando dessa insana campanha dos escritores goianos contra a Universidade Federal de Goiás, ao longo de uma série de sofismas em forma de reportagens. A exemplo dos escritores goianos, O Popular também está advogando em causa própria — quanto mais goianos houver no vestibular, mais dependentes do Vestlivros os vestibulandos serão. Que um jornal tenha esse interesse mercantil, entende-se. Que a intelectualidade o encampe é deplorável.

E esse é o ponto mais grave da adoção de goianos no vestibular. Quando o doutor em letras José Fernandes interpreta de um modo completamente errado o conto “A Ceia de Aninha”, do livro A Friagem, de Augusta Faro, como é que o atribulado vestibulando da Federal ou o mal-pago professor da escola pública irão perceber que essa é apenas uma das infinitas sandices que ele escreve? A autoridade de um doutor em letras já é suficiente para eles imaginarem que ali está a verdade. E o referendo do maior jornal do Estado torna essa verdade inquestionável. Ainda que desconfiem daquela mentira travestida de ciência, só teriam coragem de contestá-la se dispusessem do contraponto de outras críticas sobre o mesmo livro. Daí a importância vital de só se adotarem nas escolas e no vestibular livros que já tenham passado pelo crivo de vários olhares diferentes. A fortuna crítica evita o infortúnio ético — a diversidade do diálogo crítico impede o monólogo da charlatanice intelectual.

A Universidade Federal de Goiás precisa rever, de fato, os seus critérios de adoção de livros no vestibular. Não para impor mais goianos caça-níqueis sobre vestibulandos indefesos e, sim, para tentar coibir a indústria do resumo e da exegese de aluguel que fazem da literatura no vestibular mais um ramo de negócio na educação. Adotar um livro da literatura goiana a cada ano no vestibular é a contribuição justa que a UFG deve a Goiás — e ela está cumprindo esse dever. Querer mais do que isso é advogar em causa própria e — ao contrário do que tentou negar um enfático Miguel Jorge no encontro com a reitora — é, sem dúvida, fazer das escolas um aterro sanitário para a desova de livros goianos.

Os escritores goianos só não percebem o exagero de sua proposta — ao pedir a inclusão de quatro livros seus no vestibular — porque parecem não saber a diferença entre os vários níveis de escolaridade e confundem vestibulando com estudante de letras. O genérico aluno de 2º grau, que vai fazer computação, medicina, física e uma infinidade de outros cursos, precisa do diálogo de uma literatura universal, não do monólogo de uma literatice particular. Estudo de literatura goiana, quando muito, só para estudante de letras. Na universidade, sim, pode ser defensável a liberação das drogas.

(Publicado no Jornal Opção, no início de maio de 2001)

0 comentários: