Já se disse que o grande azar do poeta inglês John Milton foi ter sido contemporâneo de William Shakespeare. A hipertrofiada glória do bardo inglês acabou ofuscando a genialidade do irlandês dantesco. No caso do Brasil, o mineiro Guimarães Rosa exerceu esse papel na literatura regionalista. Com a publicação, em 1956, de um conjunto de obras-primas (as novelas de Noites do Sertão e o romance Grande Sertão: Veredas), o criador de Riobaldo e Diadorim deixou engasgados bons escritores como Mário Palmério em Minas, Bernardo Élis em Goiás e Dalcídio Jurandir no Pará. Não que esses autores tenham deixado de produzir (ainda publicaram algumas obras de valor), mas, em face do que Rosa tinha feito com o Grande Sertão, tudo o que podiam dizer a mais se assemelhava a rascunho. O regionalismo pareceu tão morto depois de Guimarães Rosa que o próprio Bernardo Élis achou por bem antecipar-lhe um epitáfio nos contos de Apenas um Violão, quando envereda pela temática urbana menos por demonstrar domínio desse novo veio estético que por desacreditar no que vinha fazendo antes.
Mas como a arte se faz é na surpresa, eis que ressurge um regionalismo de boa qualidade — os contos de O Pequeno Livro do Cerrado, de Gil Perini. Publicado pela Editora Giordano, com esmerada produção gráfica de Jaci Siqueira e ilustrações do próprio autor, o livro traz sete contos, todos eles versando sobre o cerrado. Gil Perini é paulista de Igarapava, mas mudou-se com a família para Goiás ainda criança. Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, foi médico no antigo Médio-Norte Goiano, antes da criação do Estado do Tocantins. Foi ali, segundo conta no posfácio da obra, que descobriu que “o cerrado é um só e é muitos”. Pouco estudado até do ponto de vista geográfico, já que sempre foi ofuscado pela Amazônia, o cerrado é, na verdade, a cara do Brasil. Porque é dele que se constitui a maior parte do país. E, nesse continente físico que é o cerrado, variam as culturas humanas, que vão do paranaense ao paraense, do mineiro do norte ao piauiense do sul. Mas Gil Perini conta que encontrou um lugar em que todos os cerrados confluem — um lugar que é “meio Goiás, meio Tocantins”, com o Araguaia de um lado, a Serra Geral de outro e o Tocantins no meio. É nesse cenário que situa suas histórias.
Não se trata de contos propriamente ditos, mas de “causos”. As histórias de Gil Perini, em sua maioria, são lineares e seus personagens, quase panorâmicos. O que não quer dizer que sejam superficiais. Decalcados de figuras típicas da região, não se verticalizam em porões psicológicos nem se metem em sótãos filosofantes — ficam ao rés-do-chão com tudo o que isso significa em existência. Tanto que um dos contos menos convincentes do livro é exatamente “Amigos”, em que Gil Perini dialoga com Orson Welles. Mesmo assim, o conto se salva tanto pelo belo arremate de um post scriptum engenhoso quanto pelas quatro páginas iniciais em que não há um único ponto final. Mas os pontos não estão ausentes apenas do ponto de vista gráfico, como ocorre na maioria dos escritores goianos que se metem a fazer fluxo de consciência, entre eles os autores do GEN — também na leitura das quatro páginas de “Amigos” é impossível fazer pausa, o que atesta o domínio técnico que Gil Perini possui da narrativa, apesar de ser doutor em medicina e não em letras.
Um conto se destaca no livro — “A Seca”. Remontando a uma tradição que remete ao veio regional da literatura romântica e que encontra seu ápice em Euclides da Cunha, com seus grandiloqüentes painéis físicos, Gil Perini começa o conto com uma ambiciosa descrição da seca antes de situar nela o homem. E o faz com mão de mestre. “O cerrado se vê com olhos castanhos”, resume, quando descreve o manto opaco da seca, e lembra que “nenhum olho verde olha a paisagem”, já que “o lugar é de índios, pretos, caboclos, cafuzos”. Essa descrição pungente remete ao conto “A Chuva”, simetricamente oposto. “A Seca”, juntamente com “Amigos”, é um dos causos do livro que mais se aproxima da estrutura de um conto. Já o conto “A Chuva”, uma peça com elementos autobiográficos, em que o autor homenageia José Décio Filho e Jorge Luis Borges, é ensaístico, como algumas narrativas do próprio Borges e de José J. Veiga.
Na narrativa de Perini, terras, bichos e gentes se amalgamam numa só natureza. Essa capacidade de fundir um conciso elemento humano numa facetada paisagem física é que faz com que suas descrições aparentemente estanques deixem de ser um cenário decorativo para o desenrolar das ações e se tornem a própria alma que move seus personagens. É também isso o que faz com que seus causos não sejam meros documentos do sertão para serem genuína literatura. Mas a grande qualidade do livro é seu estilo ao mesmo tempo singelo e sentencioso, fluente e traiçoeiro, capaz de conferir transcendência às discretas indagações existenciais de um vaqueiro. Às vezes, Gil Perini chega a ser um Manuel de Barros em prosa, o que necessariamente remete ao criador do Grande Sertão: Veredas. Suas palavras não caem a esmo no texto, têm peso e medida, sabor e cheiro. Nem parece que Gil Perini lutou com palavras. Como o vaqueiro Guimarães Rosa, ele parece tê-las ruminado — porque O Pequeno Livro do Cerrado metaboliza o sertão. Por isso, é um pequeno belo livro.
(Publicado no Jornal Opção, de Goiânia, em 1999)

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