<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3489666274423755278</id><updated>2011-07-30T14:02:09.143-07:00</updated><title type='text'>Puericultura Goiana</title><subtitle type='html'>Artigos sobre cultura goiana, especialmente sobre literatura</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>José Maria e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02040972524294094501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3Om5M5UcQFo/TLRmSBGUhsI/AAAAAAAAAEU/iqGStm5jToQ/S220/Papagaio.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>5</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3489666274423755278.post-2833348109876057203</id><published>2010-10-12T07:03:00.001-07:00</published><updated>2010-10-12T07:03:43.741-07:00</updated><title type='text'>O Sábio do Sertão</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Sertão é onde o sol cisma e Deus não se apressa. Lá, as noites têm tinido de grilo e chocalho de cobras. A mula-sem-cabeça vaga pelos campos. O saci cavalga uma perna só. Até o sapo é um príncipe pachola que sonha com núpcias e céus. Esse é o sertão que emerge entre fogueiras e quentões. Mas há um outro sertão — tinhoso, labirinto de homens, desenredo do mal. É desse sertão, país de almas que vivem dores de carne e osso, que falam Guimarães Rosa e Bernardo Élis. Um, nos píncaros da metafísica; outro, nos baixios da sociologia. Talvez, por isso, Carmo Bernardes resolveu desvendar a seu modo o Grande Sertão e descobriu sua terceira margem — aquela que não é de Deus nem do Diabo, mas do homem, amálgama da natureza.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;É dessa terceira margem do sertão que ele trouxe &lt;em&gt;Jurubatuba&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Reçaga&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Nunila&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Ressurreição de um Caçador de Gatos&lt;/em&gt;, entre muitos outros livros e artigos. E chega com um novo romance, &lt;em&gt;Santa Rita&lt;/em&gt;, que acaba de ser lançado pela Editora da Universidade Federal de Goiás. O livro tem como tema a fundação da cidade que lhe empresta o nome e faz a simbiose entre a política e a paixão. Carmo não esconde que é um insatisfeito permanente com sua obra: “Depois de cada livro, sempre fico com a impressão de que escrevi apenas um terço do que deveria escrever”.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;O escritor, que nasceu na cidade mineira de Patos de Minas, completou 80 anos no sábado &lt;em&gt;[2 de dezembro de 1995]&lt;/em&gt; , quando lançou Santa Rita no Centro de Tradições Goianas. Há pouco mais de dois meses, foi submetido a uma cirurgia para implantação de um marca-passo, depois de mais uma complicação cardíaca motivada pela doença de Chagas, que contraiu há muitos anos em Damolândia. Apesar dos efeitos da cirurgia, ele renovou o sorriso, que andava meio macambúzio em seu rosto. O motivo revela uma ingenuidade de menino grande: “Não sabia que fosse tão querido em Goiás” — confessa, encabulado com a imensa quantidade de telefonemas e cartas que recebeu desde que se internou.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Carmo Bernardes mora numa casa modesta no Setor Pedro Ludovico. Na varanda dos fundos, impregnada de uma atmosfera rural, um gato mata a sede no tanque de roupa, um macaco faz traquinagens na corrente e os cães se interpõem entre o dono e a visita. Um deles, de largas orelhas e pêlos fulvos, aboleta-se na cadeira vazia, como se quisesse participar da conversa. A fala de Carmo, entrecortada pelo canto insistente de uma galinha-d'angola, sustenta a firmeza das idéias. Mas o rosto magro e os passos miúdos denotam os anos e os dias de hospital.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Vendo-o entre seus bichos, inclusive os beija-flores que atrai com os artifícios da cidade, é possível pensar que Carmo Bernardes se trata de um simples homem da terra. Mas engana-se quem o confunde com uma força telúrica. Ele também é um animal urbano, da espécie descrita por Aristóteles. Ou um poeta, que poderia dizer como Camões: “Não me falta na vida honesto estudo, com longa experiência misturado”. Prova disso é que já escreveu romances, contos, modas de viola, ensaios ecológicos e testamentos de Judas — graças à sua vida de pedreiro, carpinteiro, pintor de paredes, jornalista, dentista prático e até procurador-com-aspas, profissão que ele explica com meio-sorriso.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Em sua obra, o sertão não é bucólico, nem trágico; não é cenário, nem pretexto. O sertão é sertão. Por ele, o homem fala e o escritor se cala e vice-versa. Mais que ninguém, Carmo Bernardes tem o direito de apelar para o lugar-comum e afirmar que escreve por transpiração. No seu caso, não se trata de uma frase de efeito, mas da verdade de um fato: o sertão não inspira sua obra — é metabolizado por ela. É isso que faz dele uma simples força da natureza para a crítica evolucionista. O que não é verdade. Como ele mesmo ensina aos críticos incautos, a arte não evolui — ela se superpõe.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Carmo Bernardes tem sedimentação variada. É rural e urbano, singular e plural. Sua obra sabe à terra molhada e picumã, mas ele a escreve num computador 486, desde que aposentou a velha Olivetti — uma relíquia que ocupa lugar especial em sua sala. A linguagem da arraia-miúda do sertão perpassa sua obra, mas ele não se rende ao preconceito dos sociólogos, que se esmeram num foneticismo chulo cada vez que tentam reproduzir o linguajar caboclo. Os costumes alimentam sua ficção e seus ensaios, mas ele não dispensa a imaginação e a ciência. Só que sua imaginação é feita de memória, e sua ciência compõe-se de intuição. Em tempos de antanho, esse amálgama tinha um nome — sabedoria.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;(Publicado no Jornal Opção, Goiânia, 1995)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3489666274423755278-2833348109876057203?l=puericulturagoiana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/feeds/2833348109876057203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3489666274423755278&amp;postID=2833348109876057203&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/2833348109876057203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/2833348109876057203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/2010/10/o-sabio-do-sertao.html' title='O Sábio do Sertão'/><author><name>José Maria e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02040972524294094501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3Om5M5UcQFo/TLRmSBGUhsI/AAAAAAAAAEU/iqGStm5jToQ/S220/Papagaio.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3489666274423755278.post-273246824210705091</id><published>2010-10-12T06:37:00.000-07:00</published><updated>2010-10-12T06:39:10.370-07:00</updated><title type='text'>O Metabolismo do Sertão</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Já se disse que o grande azar do poeta inglês John Milton foi ter sido contemporâneo de William Shakespeare. A hipertrofiada glória do bardo inglês acabou ofuscando a genialidade do irlandês dantesco. No caso do Brasil, o mineiro Guimarães Rosa exerceu esse papel na literatura regionalista. Com a publicação, em 1956, de um conjunto de obras-primas (as novelas de &lt;em&gt;Noites do Sertão&lt;/em&gt; e o romance &lt;em&gt;Grande Sertão: Veredas&lt;/em&gt;), o criador de Riobaldo e Diadorim deixou engasgados bons escritores como Mário Palmério em Minas, Bernardo Élis em Goiás e Dalcídio Jurandir no Pará. Não que esses autores tenham deixado de produzir (ainda publicaram algumas obras de valor), mas, em face do que Rosa tinha feito com o Grande Sertão, tudo o que podiam dizer a mais se assemelhava a rascunho. O regionalismo pareceu tão morto depois de Guimarães Rosa que o próprio Bernardo Élis achou por bem antecipar-lhe um epitáfio nos contos de &lt;em&gt;Apenas um Violão&lt;/em&gt;, quando envereda pela temática urbana menos por demonstrar domínio desse novo veio estético que por desacreditar no que vinha fazendo antes.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Mas como a arte se faz é na surpresa, eis que ressurge um regionalismo de boa qualidade — os contos de &lt;em&gt;O Pequeno Livro do Cerrado&lt;/em&gt;, de Gil Perini. Publicado pela Editora Giordano, com esmerada produção gráfica de Jaci Siqueira e ilustrações do próprio autor, o livro traz sete contos, todos eles versando sobre o cerrado. Gil Perini é paulista de Igarapava, mas mudou-se com a família para Goiás ainda criança. Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, foi médico no antigo Médio-Norte Goiano, antes da criação do Estado do Tocantins. Foi ali, segundo conta no posfácio da obra, que descobriu que “o cerrado é um só e é muitos”. Pouco estudado até do ponto de vista geográfico, já que sempre foi ofuscado pela Amazônia, o cerrado é, na verdade, a cara do Brasil. Porque é dele que se constitui a maior parte do país. E, nesse continente físico que é o cerrado, variam as culturas humanas, que vão do paranaense ao paraense, do mineiro do norte ao piauiense do sul. Mas Gil Perini conta que encontrou um lugar em que todos os cerrados confluem — um lugar que é “meio Goiás, meio Tocantins”, com o Araguaia de um lado, a Serra Geral de outro e o Tocantins no meio. É nesse cenário que situa suas histórias.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Não se trata de contos propriamente ditos, mas de “causos”. As histórias de Gil Perini, em sua maioria, são lineares e seus personagens, quase panorâmicos. O que não quer dizer que sejam superficiais. Decalcados de figuras típicas da região, não se verticalizam em porões psicológicos nem se metem em sótãos filosofantes — ficam ao rés-do-chão com tudo o que isso significa em existência. Tanto que um dos contos menos convincentes do livro é exatamente “Amigos”, em que Gil Perini dialoga com Orson Welles. Mesmo assim, o conto se salva tanto pelo belo arremate de um &lt;em&gt;post scriptum&lt;/em&gt; engenhoso quanto pelas quatro páginas iniciais em que não há um único ponto final. Mas os pontos não estão ausentes apenas do ponto de vista gráfico, como ocorre na maioria dos escritores goianos que se metem a fazer fluxo de consciência, entre eles os autores do GEN — também na leitura das quatro páginas de “Amigos” é impossível fazer pausa, o que atesta o domínio técnico que Gil Perini possui da narrativa, apesar de ser doutor em medicina e não em letras.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Um conto se destaca no livro — “A Seca”. Remontando a uma tradição que remete ao veio regional da literatura romântica e que encontra seu ápice em Euclides da Cunha, com seus grandiloqüentes painéis físicos, Gil Perini começa o conto com uma ambiciosa descrição da seca antes de situar nela o homem. E o faz com mão de mestre. “O cerrado se vê com olhos castanhos”, resume, quando descreve o manto opaco da seca, e lembra que “nenhum olho verde olha a paisagem”, já que “o lugar é de índios, pretos, caboclos, cafuzos”. Essa descrição pungente remete ao conto “A Chuva”, simetricamente oposto. “A Seca”, juntamente com “Amigos”, é um dos causos do livro que mais se aproxima da estrutura de um conto. Já o conto “A Chuva”, uma peça com elementos autobiográficos, em que o autor homenageia José Décio Filho e Jorge Luis Borges, é ensaístico, como algumas narrativas do próprio Borges e de José J. Veiga.&lt;/p&gt;  &lt;p align="justify"&gt;Na narrativa de Perini, terras, bichos e gentes se amalgamam numa só natureza. Essa capacidade de fundir um conciso elemento humano numa facetada paisagem física é que faz com que suas descrições aparentemente estanques deixem de ser um cenário decorativo para o desenrolar das ações e se tornem a própria alma que move seus personagens. É também isso o que faz com que seus causos não sejam meros documentos do sertão para serem genuína literatura. Mas a grande qualidade do livro é seu estilo ao mesmo tempo singelo e sentencioso, fluente e traiçoeiro, capaz de conferir transcendência às discretas indagações existenciais de um vaqueiro. Às vezes, Gil Perini chega a ser um Manuel de Barros em prosa, o que necessariamente remete ao criador do Grande Sertão: Veredas. Suas palavras não caem a esmo no texto, têm peso e medida, sabor e cheiro. Nem parece que Gil Perini lutou com palavras. Como o vaqueiro Guimarães Rosa, ele parece tê-las ruminado — porque &lt;em&gt;O Pequeno Livro do Cerrado&lt;/em&gt; metaboliza o sertão. Por isso, é um pequeno belo livro. &lt;/p&gt;  &lt;p&gt;(Publicado no &lt;em&gt;Jornal Opção&lt;/em&gt;, de Goiânia, em 1999)&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3489666274423755278-273246824210705091?l=puericulturagoiana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/feeds/273246824210705091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3489666274423755278&amp;postID=273246824210705091&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/273246824210705091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/273246824210705091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/2010/10/o-metabolismo-do-sertao.html' title='O Metabolismo do Sertão'/><author><name>José Maria e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02040972524294094501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3Om5M5UcQFo/TLRmSBGUhsI/AAAAAAAAAEU/iqGStm5jToQ/S220/Papagaio.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3489666274423755278.post-2758481604737739088</id><published>2008-10-18T00:08:00.001-07:00</published><updated>2008-10-18T00:09:31.693-07:00</updated><title type='text'>Uma Goiânia que não existe</title><content type='html'>&lt;span xmlns=""&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Goiânia apagou mais uma vela e acendeu a esperança. Dizem as pesquisas e estatísticas que ela já é a segunda melhor cidade do país para investimento. Com mais ufanismo ainda, a imprensa pôde repetir no 24 de outubro a velha história — projetada para 50 mil pessoas, Goiânia ultrapassa 1 milhão de habitantes. Parece aquele filho crescido, que espanta o pai baixinho com suas altas pernas e o rosto tomado de espinhas adolescentes. Apesar de ter entrado na menopausa desde o último censo, quando se constatou que não cresce mais tanto assim, volta e meia Goiânia ainda desperta a veia poética de algum cronista, que insiste em chamá-la de menina-moça ou cidade-primavera.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Mas esses ingênuos trovadores já estão ficando raros. A maioria percebeu que esse discurso de locutor de quermesse está ultrapassado para uma cidade que se quer metrópole do desenvolvimento. Então, engendraram o discurso economicista, que se apega aos números — são tantos por cento disso, tantos por cento daquilo. Um saldo aqui, um débito ali, e sempre encontram um lugar nobre para Goiânia, que é mostrada como uma das cidades de melhor qualidade de vida no país.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Mas tenho minhas dúvidas. A vida numa cidade moderna se passa, basicamente, em dois cenários: o público e o privado. O espaço privado, por mais que a televisão uniformize intimidades, continua dependendo mais da formação do indivíduo que de qualquer outra coisa. Já o cenário público, como o próprio nome diz, é uma soma de idiossincrasias coletivas, até onde se pode juntar dois termos tão díspares. Em casa, é provável que o goianiense pouco difere de um cidadão de qualquer outra capital brasileira — as Globos que aqui gorjeiam são as mesmas que cantam lá. A diferença pode estar no espaço público, que é onde se constrói a identidade de um lugar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;E aí que me parecem falsas as declarações de amor a Goiânia que ouvi no 24 de outubro. Na Rádio Universitária, por exemplo, músicos e artistas plásticos, como Walter Mustafé e Itamar Correia, Gomes de Souza e M. Cavalcanti, se reuniram para repetir que amam Goiânia. Que Goiânia? A não ser com uma inconseqüente paixão de colegial, não é possível amar o que não se conhece. Com apenas 63 anos e raros goianienses em seu curriculo de homens públicos, Goiânia ainda não tem um perfil próprio. Ela se define unicamente em função dos outros.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Se o Rio tem o Pão de Açúcar ou a Baía da Guanabara, Goiânia só tem um ribeirão poluído, o Meia-Ponte, e alguns morrinhos calvos, como o Mendanha. E para que não digam que não falei das flores, lembro que toda cidade tem pracinhas ajardinadas e córregos com bosque, a não ser, talvez, Saravejo, quando violentada pelos sérvios. Talvez fosse preciso ressalvar os bonitos e imprescindíveis parques ecológicos, mas eles ainda não se incorporaram à cultura local — são para o futuro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Geograficamente, Goiânia ainda não tem identidade. Mesmo quando é bonita para os olhos, nada diz ao coração. Ou será que o recém-nascido Vaca Brava ou mesmo o Bosque dos Buritis já deixaram marcas em alguma geração de goianienses? Talvez o principal ponto de referência de Goiânia continue sendo a porta do antigo Café Central. É lá, onde cruza a Anhanguera com a Rua 8, que está a nossa Ipiranga com a Avenida São João. O velho Café Central, sim, tinha história, não foi mera paisagem. Mas duvido que algum goianiense de fato se reconheça em sua porta.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;As botas, o fumo, o peso das caras que ali se juntam lembram muito mais antigas fazendas do que o centro de uma cidade. A porta do antigo Café Central é Goiânia, mas não a sonhada cidade dos cronistas e, sim, a Goiânia real, que ainda palpita nos becos de Goiás e se angustia nas curvas da conturbada Praça do Ratinho. Goiânia, como Brasília, é uma cidade-dormitório: as pessoas que aqui habitam, culturalmente não vivem aqui — estão presas a raízes que trouxeram do interior ou de outros Estados. Talvez por isso a cidade viva num permanente sonambulismo cultural, sobressaltado, vez ou outra, por algum pesadelo que os políticos engendram, como o Goiânia Country.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Quando se entra num museu de Goiânia, não é a cultura coletiva que fala ao visitante — as personalidades individuais é que se impõem. Uma obra lembra que Goiás foi dos Caiados, outra garante que a cidade pertenceu aos Ludovicos. Como a história de Goiânia é muito recente, nem Caiados nem Ludovicos deixaram de ser o que são, mortais com defeitos e virtudes, para se tornarem o que figuras históricas devem ser — uma soma de fatos e circunstâncias. Então, é pouco provável que o goianiense fique à vontade na cidade que habita. Seus donos ainda estão muito vivos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Prova disso é que os acervos históricos da cidade ainda não estão onde devem estar — em museus e universidades. A maioria continua em mãos de particulares ou em instituições culturais que, como todo o resto, ainda não deixaram o estágio de feudos em mãos de clãs. O exemplo mais claro de que Goiânia não tem identidade é o ginásio de esportes que entulha o Liceu. Erguido onde era o pátio do colégio, ele polui a visão, atrapalha as aulas e desrespeita a tradição de um colégio histórico. Mas qual o goianiense que se levantou contra sua construção?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;O Liceu de Goiânia só existe no nome. Para a casta que estudou em seus áureos tempos, Liceu se escreve com o &lt;em&gt;y&lt;/em&gt; de Goyas, a antiga Vila Boa; para os que, como eu, o conheceram como sucata, nos anos 80, ele não passa de uma escola pública qualquer. E o Liceu é apenas o exemplo sintomático. Com quase tudo que é público em Goiânia, ocorre o mesmo. A cidade não goza do respeito histórico de seus colonizadores, que preservam outras raízes, nem conta com a solidariedade de seus filhos, que ainda não se sentem em casa.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;Não é possível comemorar Goiânia — é preciso construí-la dentro de cada um. E isso não se faz com palavras vazias, por isso é preciso apagar as que abrem esse artigo e todas as outras que, como elas, insistem em dizer que Goiânia é menina-moça, cidade-primavera ou mesmo a "matrona" do historiador Nars Chaul, que a chamou de "bonita e perigosa" em artigo no jornal &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt;. A capital de Goiás é apenas uma cidade com andaimes à mostra. Os goianienses ainda não se apossaram dela. Sua identidade é um vir-a-ser. A rigor, Goiânia nem existe. Até agora é apenas uma criação de Pedro Ludovico.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;font-size:12;"&gt;&lt;em&gt;(Publicado no Jornal Opção, em outubro de 1996)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3489666274423755278-2758481604737739088?l=puericulturagoiana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/feeds/2758481604737739088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3489666274423755278&amp;postID=2758481604737739088&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/2758481604737739088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/2758481604737739088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/2008/10/uma-goinia-que-no-existe.html' title='Uma Goiânia que não existe'/><author><name>José Maria e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02040972524294094501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3Om5M5UcQFo/TLRmSBGUhsI/AAAAAAAAAEU/iqGStm5jToQ/S220/Papagaio.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3489666274423755278.post-4562769978991268308</id><published>2008-10-02T16:06:00.001-07:00</published><updated>2008-10-24T09:16:08.475-07:00</updated><title type='text'>Goianos no vestibular: da causa própria à avacalhação</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ao propor que lista de livros do vestibular não inclua apenas goianos consagrados, mas também premiados e novos, escritores confirmam que, para eles, escola é mesmo camelódromo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Leia antes o artigo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;a href="http://puericulturagoiana.blogspot.com/2008/10/literatura-goiana-esttica-do.html"&gt;Literatura Goiana: A Estética do Ressentimento&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, recebi a visita de uma escritora goiana. Vinha reclamar de um artigo meu, em que três ou quatro linhas eram comedidamente desfavoráveis a ela. Não havia nenhum sentido para a reclamação, uma vez que a minha crítica nem chegava a ser crítica, era um reparo extremamente respeitoso, condizente com o que eu já havia escrito antes sobre sua obra. Mas o que essa autora exigia de mim era que eu não fosse um crítico, mas um camareiro — simplesmente queria que eu soubesse de uma disputa familiar a respeito de seu novo livro. Ela e um parente seu tinham explorado o mesmo assunto, de forma independente e rival, e ela, entendendo que o parente tinha agido de má-fé, ao também publicar um livro sobre o tema em que julgava ter monopólio, queria estender aos jornais da cidade o anátema que provavelmente já tinha tentado impingir-lhe em família e entre amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que eu lhe tenha explicado que essa disputa de família em torno de um objeto de estudo não me dizia respeito como crítico e que o meu objeto de análise só poderia ser os livros já publicados, o dela e o do parente, sem levar em conta os antecedentes genéticos de cada um, a escritora não quis me entender. Ainda hoje deve achar que agi de má-fé e virou-me definitivamente a cara. Bastaram essas três ou quatro linhas desfavoráveis para que se esquecesse inteiramente de um artigo de duas páginas, em que eu lhe elogiara não só um livro, mas quase toda a sua obra até então publicada. Obra e autora, aliás, que eram completamente ignoradas pela imprensa local. Mais grave é que, na época, praticamente desconhecido nos círculos intelectuais goianos, ouvi desta escritora, por telefone, a seguinte confissão: a minha resenha sobre a sua obra tinha sido tão bem escrita, de nível tão admirável, segundo ela, que uma outra escritora goiana, sua amiga, achou que ela própria é quem tinha escrito o texto, mesmo o artigo estando nitidamente assinado por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse dia que comecei a sentir pena da literatura goiana. Fiquei me perguntando como é que uma escritora — ancestralmente consagrada — se mostrava incapaz de ler e compreender uma simples matéria de jornal, imputando à própria autora de um livro uma resenha sobre ele escrita na terceira pessoa e assinada por um jornalista. E o que é ainda mais grave: mesmo quando alertada para essa questão, a escritora consagrada disse: “Mas claro que foi você quem escreveu, fulana. Jornalista não sabe escrever”. Quando digo que isso é ainda mais grave, não estou pensando apenas no desconhecimento que a frase revela da profissão de jornalista (historicamente, um celeiro de grandes escritores), mas no próprio caráter moral subjacente a ela. Se essa escritora achava normal uma colega escrever sobre si mesma e publicar o texto em terceira pessoa, ainda por cima assinado por um jornalista, então, é porque a literatura goiana não passa mesmo de uma cabal impostura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que a minha pena da literatura goiana começou a se transformar em desprezo. E só não se transformou em desprezo definitivo — como se verá ao longo deste ensaio — porque, naquele dia em que a escritora veio reclamar das minhas críticas, um outro fato recompôs a piedade inicialmente suscitada. Ao se despedir de mim, por volta das seis da tarde, ouvi da escritora — uma professora aposentada, quase avó — que precisava chegar em casa antes do marido para preparar-lhe a janta. Não pude deixar de sentir uma profunda compaixão por aquela mulher indiscutivelmente talentosa, potencialmente capaz de vôos lúcidos, mas cerceada pela condição feminina, que fazia dela não uma intelectual autônoma, mas uma extensão do marido, mesmo depois de reconhecida em jornais e livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse fato que acabo de relatar não é uma idiossincrasia — é um paradigma. Revela a gênese da cultura goiana e aclara o descompasso que ela continua apresentando em relação à cultura do país. Num artigo publicado em novembro de 1962, Gilberto Mendonça Teles já dizia que, apesar de Félix de Bulhões e Hugo de Carvalho Ramos, a literatura goiana só começou a existir verdadeiramente a partir da Revolução de 30. E, depois de apontar o “isolamento geográfico e espiritual do Estado”, a “imaturidade político-administrativa” e a “preocupação primária de nossos antepassados” como principais causas desse aparecimento tardio da literatura em Goiás, Gilberto Mendonça Teles — quase 20 anos depois de Bernardo Elis ter publicado &lt;em&gt;Ermos e Gerais&lt;/em&gt; — ainda sustentava corajosamente: “É bem verdade que as causas acima apontadas impedem a existência de maiores valores intelectuais, condicionando assim uma literatura vacilante e sob certos aspectos indefinida”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época, Gilberto Mendonça Teles via com esperança o surgimento do “ambiente universitário” em Goiás bem como a proximidade com o Distrito Federal, mas a história demonstra que sua esperança não se concretizou tão rapidamente — só agora, passados 40 anos de sua fundação, é que a Universidade Federal de Goiás começa a trazer para o Estado uma visão de fato universal do mundo — graças, inclusive, aos doutores que vieram de fora. Enquanto a USP foi fundada por intelectuais, com uma visão progressista da educação superior, calcada numa inequívoca associação com o desenvolvimento socioeconômico de São Paulo, a UFG nasceu como um quintal das atrasadas elites locais, que, ao criá-la, não pensavam exatamente no desenvolvimento do Estado, mas na economia doméstica — o quanto iriam poupar deixando de mandar os filhos para fazer um curso superior no Rio de Janeiro ou Minas Gerais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se praticamente toda a Universidade Federal de Goiás surgiu como um quintal das elites, o caso do Departamento de Letras da UFG, hoje faculdade, é ainda pior — ele era a própria camarinha das famílias nobres, o lugar onde as mulheres e filhas das elites locais iam coroar suas prendas domésticas, misturando acrósticos com ponto-cruz. Foi essa origem familiarmente tradicional do curso de letras que fez dele um espaço aberto para o escritor goiano desde o primeiro ano de vida da Universidade Federal de Goiás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a professora, crítica e escritora Darcy Denófrio, em artigo publicado no &lt;em&gt;Popular&lt;/em&gt; de quinta-feira, 2, afirma que o espaço para a literatura goiana na UFG foi uma “lenta conquista”, ela simplesmente despreza os fatos históricos. A Imprensa Universitária, ancestral da Editora da UFG, já nasceu, junto com a universidade, publicando livros da literatura goiana e sobre ela, a partir de um grande concurso para os escritores locais, em todos os gêneros, criado pelo então reitor Colemar Natal e Silva, em 1962, apenas dois anos depois de fundada a UFG. O romance &lt;em&gt;Rio Turuna&lt;/em&gt;, de Eli Brasiliense (um dos premiados neste concurso em que Bernardo Élis recebeu apenas menção honrosa), foi publicado pela própria UFG.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Darcy Denófrio pode alegar que não está falando do apoio institucional à literatura goiana, mas de sua inclusão como objeto de estudo universitário, fato que, segundo ela, só se deu em meados da década de 70, por iniciativa de Moema Olival, institucionalizada a partir de meados da década de 80. Ainda assim, trata-se de um interesse extremamente precoce pela literatura local — sem similar nas grandes universidades brasileiras — e que só se torna possível quando o paradigma cartesiano da universalidade do conhecimento começa a ser questionado pelos novos paradigmas da ciência contemporânea, abrindo espaço para os estudos culturalistas, calcados em particularidades regionais. Na USP, por exemplo, aquele que viria a ser um dos maiores críticos literários da língua portuguesa — o professor Antonio Candido — só pôde chegar à literatura pelo caminho da sociologia, mesmo assim, depois de passar pelos cursos de medicina e direito, por imposição do pai, que não via futuro prático na filosofia, então arcabouço das demais ciências humanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura brasileira era tão pouco levada a sério como objeto de estudo acadêmico (algo que só viria a ocorrer na década de 60, a partir de Afrânio Coutinho), que Antonio Candido jamais tinha pensado em estudá-la — seu interesse era a literatura francesa e só se pôs a escrever os clássicos que escreveu por força de um concurso e de um contrato com a Editora Martins. É o próprio Antonio Candido quem revela esse escasso interesse pela literatura brasileira, numa histórica entrevista à revista &lt;em&gt;Ciência Hoje&lt;/em&gt;, em junho de 1993: “Obrigado pelo concurso e pelo livro a entrar fundo na literatura brasileira, desenvolvi em relação a ela um interesse que não tinha, embora tenha sido sempre leitor normal de nossos autores. Mas na minha escala de valores os franceses, depois os ingleses, estavam não só muito acima, como me atraíam muito mais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se três séculos depois de Antônio Vieira e Gregório de Matos, a própria literatura brasileira, com um Machado de Assis à frente, demorou a ser considerada digna de atenção acadêmica, por que a literatura goiana, muito mais incipiente, já quer se tornar canônica nas universidades? E o que é mais grave, por que quer se impor como palmatória estética até mesmo a alunos e alunas do ensino médio? No pseudodebate que se travou até agora sobre a inclusão de livros goianos nos vestibulares locais, essas perguntas sequer foram feitas, quanto mais respondidas. Lamentavelmente, os dois professores que até agora escreveram artigos minimamente dignos de leitura criticando a posição da UFG, o historiador Nasr Chaul e a crítica Darcy Denófrio, estão rasgando os respectivos diplomas de mestre e doutor que um dia receberam da universidade. Chaul e Denófrio, como se nunca tivessem ouvido falar em educação, se esquecem que a literatura (brasileira, goiana ou de onde mais for) entra no vestibular como pedagogia não como mecenato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falta base objetiva à literatura goiana para impingir-se às escolas nos moldes em que os escritores querem que ela se imponha. E a primeira prova de que os autores goianos não dispõem de argumentos objetivos para defender suas obras é o fato de renegarem, para elas, a classificação de “literatura goiana”. Para que se entenda de uma vez por todas porque é fundamental o conceito de “literatura goiana” tão repudiado pelos escritores locais, tomemos o exemplo do Maranhão dos Ribamares. Ferreira Gullar é maranhense e, em qualquer lugar do país, tem cadeira cativa nas escolas como um dos grandes poetas da língua portuguesa. Logo, se a Universidade Federal do Maranhão resolve adotá-lo em seu vestibular, irá fazê-lo por um critério estritamente estético. Nem vai lembrar-se de sua certidão de nascimento para ver se nasceu mesmo em São Luís. E se a mesma universidade tiver a idéia de substituir Ferreira Gullar por José Sarney no vestibular seguinte? Ela pode dizer que o escritor José Sarney pertence à literatura brasileira no mesmo grau estético em que Ferreira Gullar a integra? Obviamente, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas José Sarney, dirão os professores maranhenses, não é um escritor tão ruim como o seu mandato de presidente sugere. Talvez esteja no mesmo nível estético de um Bernardo Elis sem ter a mesma importância histórica do goiano. O que fazer, então, para incluí-lo no vestibular sem dar a impressão de que se está preterindo uma infinidade de escritores nacionais muito superiores a eles? Ora, substituindo o critério da universalidade estética em relação à língua portuguesa pelo critério da relatividade estética em relação à geografia cultural. Isto é, reconhecendo o óbvio — que José Sarney, mesmo não sendo um Ferreira Gullar (a quem nunca poderia substituir por critérios apenas estéticos), merece ser lido ao menos em sua terra, como expressão da literatura maranhense. Logo, quando Sarney substituir Gullar no vestibular do Maranhão, ninguém irá questionar o aparente absurdo estético, porque saberão que Sarney não está ocupando um espaço que seria de Gullar, mas, sim, o pedacinho que cabe ao Maranhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa parábola sobre os dois conhecidos Ribamares (o presidente do Cruzado e o cruzado da poesia) mostra que há de se admitir a existência de uma literatura maranhense — a dos maranhenses menores, como José Sarney — para diferenciá-la da literatura brasileira, que, por acaso, também pode ser feita pelos grandes maranhenses, como Ferreira Gullar. Essa analogia vale para Goiás como vale para todos os outros Estados brasileiros, inclusive, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, onde também ocorre uma literatura provinciana, sem importância alguma no âmbito da literatura nacional, mas que existe e, por existir, precisa ser nomeada, daí a necessidade de se chamá-la carioca, paulista ou mineira, quando acontece de alguns dos seus protagonistas darem as caras fora das fronteiras de seus Estados onde só são conhecidos pelos colegas de coquetel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi esse o critério que norteou a Faculdade de Letras da UFG em sua proposta original, como o professor Mário Frungillo explicou em artigo publicado no jornal &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt; de domingo, 29: “A proposta que apresentamos foi a seguinte: os autores procedentes do Estado, cuja obra já se encontra reconhecida nacionalmente, deveriam constar da lista de referência entre os clássicos da literatura brasileira. Tratava-se de um critério objetivo, que tinha a virtude de evitar a influência de gostos e idiossincrasias pessoais. Obras de autores menos conhecidos poderiam sempre ser discutidas anualmente e, havendo consenso, incluídas seja no item ‘lançamento’, seja no de ‘autor goiano’.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nenhum momento, a UFG quis excluir a literatura goiana do vestibular; pelo contrário, deu-lhe mais possibilidades de inclusão: seja, através dos autores consagrados da literatura brasileira (Hugo de Carvalho Ramos, José J. Veiga, Bernardo Elis e Cora Coralina), seja por meio da possibilidade de incluir um autor menos conhecido da literatura goiana. Se a má-fé não fosse míope, o professor José Fernandes e os demais escritores que o apóiam teriam percebido que a UFG não só preservou a indicação de goianos no vestibular, como até deixou aberta a possibilidade de indicar dois goianos de uma vez só: um pela literatura brasileira em geral e outro pela literatura goiana em particular — repita-se. Mas a proposta acabou rechaçada. Não porque Carmo Bernardes foi chamado de “matuto”, como a imprensa de má-fé e seus áulicos afirmaram, mas porque os professores perceberam que é impossível estabelecer uma hierarquia de valores na literatura goiana — todos são gênios e não há umbigo que admita o contrário. Resultado: tiveram que tirar da lista até os clássicos Hugo, Veiga, Bernardo e Cora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a razão desse procedimento aparentemente incompreensível é simples. Sem admitir um conceito de “literatura goiana”, como querem os escritores locais, nem mesmo Hugo de Carvalho Ramos, José J. Veiga, Bernardo Elis e Cora Coralina poderiam constar da lista geral — sob pena de fechar as portas do vestibular para todos os demais autores goianos. Como há um compromisso pedagógico das universidades com os professores do ensino médio no sentido de só indicar para o vestibular livros da literatura brasileira que constam da lista geral de mais de 100 obras, para não prejudicar o autor goiano, restringindo sua possibilidade de indicação no vestibular, a universidade só tinha um caminho — excluir Hugo, Veiga, Bernardo e Cora da lista geral de literatura brasileira. Com a permanência dos quatro na lista geral, e não havendo a possibilidade de uma “literatura goiana”, como advogam os próprios escritores, então, só os quatro poderiam ser indicados, caso contrário, seria quebrado o compromisso com as escolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, todas as reportagens que saíram na imprensa sobre a exclusão de autores goianos do vestibular não passam de falso jornalismo. A literatura goiana não foi excluída do vestibular da Universidade Federal de Goiás, como fez crer o jornal &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt;, ao encampar o protesto infundado das instituições culturais goianas, lideradas pelo presidente da Academia Goiana de Letras, José Fernandes. Mas ao chamar Carmo Bernardes de “matuto”, o representante da UCG na comissão de literatura, o professor Eris Antônio Oliveira (o mesmo que adotou no vestibular um livro com 650 erros) acabou servindo de mote para &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt; intensificar a campanha em causa própria. E não faltou nem mesmo a pena de Nars Chaul para compartilhar o “horror” suscitado pela crítica a Carmo Bernardes. Ora, escritor — vivo ou morto — existe para ser criticado. O professor Éris Oliveira está equivocado ao menosprezar a literatura de Carmo Bernardes, mas não precisa esconder-se feito um criminoso, como se a obra de um escritor goiano tivesse de ser — por princípio — intocável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito menos se pode estender o desagravo a Carmo Bernardes até o ponto do desvario, comparando-o com Guimarães Rosa, como ocorreu na audiência que os escritores goianos tiveram com a reitora Milca Severino Pereira, na quinta-feira, 3. Em face da genialidade de Rosa, Eris Oliveira tem razão — Carmo não passa mesmo de um simplório matuto. Mas em Goiás é proibido fazer esse tipo de comparação crítica sobre qualquer escritor. Província que é, Goiás ainda trata a sua literatura como o “sorriso da sociedade”. Fazer literatura em Goiás — independente da qualidade dela — já reveste o sujeito da condescendência pública. O escritor goiano, por mais incômodo que seja, é sempre suportado com paciência. Como em toda cultura incipiente, onde a arte ainda não se profissionalizou e conserva uma aura de pureza, a sociedade goiana considera todo artista uma inspiração dos deuses encarnada, daí a simpatia com que trata todos os seus artistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exemplo disso, além da literatura, é o artista plástico Siron Franco. Fora de Goiás, Siron é um artista esteticamente iconoclasta, que se acerca do poder com ratoeiras para denunciar a corrupção. Em Goiás, é um artista socialmente acomodado, que não hesita em pintar um feijão numa bandeira para se aproximar do governante de plantão. O Siron-esgar que o Brasil conhece transforma-se no Siron-sorriso tão logo Goiás — com sua tendência à unanimidade — o desarma. Mas essa unanimidade natural — que cerca qualquer artista apenas pelo fato de ser goiano — tem um preço muito alto: ela faz com que um artista do nível de Siron acabe ocupando, na imprensa local, um espaço pouco maior do que aquele que um artista iniciante ocupa. O provincianismo — que confere a todo nascido em Goiás uma certidão de imunidade crítica — acaba fazendo também com que todo artista goiano seja igual perante lei da condescendência infinita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que a Universidade Federal de Goiás não tinha e não tem outra escolha: ela não pode incluir nenhum escritor goiano na lista geral dos indicáveis para o vestibular, pela simples razão de que, escolhendo um, será obrigada a escolher todos — o que já não é seleção, mas avacalhação. Foi o que ficou mais do que evidente na reunião dos escritores goianos com a reitora Milca Severino. Além de exigir a absurda inclusão de três ou quatro livros goianos em cada vestibular (cantilena que José Fernandes reverberava feito um monjolo), os escritores deixaram claro que não querem a inclusão na lista apenas dos consagrados — querem que sejam incluídos também os premiados e os novos. Ou seja, todos eles, porque praticamente já não há escritor inédito e não-premiado em Goiás. As benesses públicas já tiraram todos os originais das gavetas. A literatura goiana é uma espécie de realismo socialista — os escritores são, de ponta a ponta, bancados pelo Estado, que premia a obra em dinheiro, manda imprimi-la e ainda dá exemplares para o próprio escritor vender na escola. E, se depender dos escritores, ainda arregimenta os leitores pelo cabresto da lei — como querem fazer agora no vestibular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esse livro de custo zero e qualidade negativa que o autor goiano tem a coragem de obrigar um aluno a comprar por 10, 15 ou até 20 reais — auferindo um lucro exorbitante, já que não teve nenhum gasto com ele, a não ser o do tempo empregado na cabalagem literária em órgãos públicos ou nos bastidores de concursos duvidosos. Esse estelionato cultural já está acontecendo com freqüência nas escolas, inclusive públicas. E o que os escritores goianos querem da UFG é apenas a legalização dessa prática imoral, que nada tem a ver com cultura muito menos com educação. Por isso, é deplorável que Nasr Chaul, imaginando-se pós-moderno, afirme que “os vestibulandos devem sim ser considerados consumidores”, reforçando a política mercantil do ensino privado, que as universidades públicas tanto combatem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de se perguntar aos alunos do ensino médio quanto eles têm de dinheiro para oferecer ao escritor, na compra de seu livro, é preciso perguntar ao escritor o que ele tem a oferecer ao aluno, para sua formação. Entre as muitas funções que o ensino da literatura desempenha na escola — e por extensão no vestibular — estão desde o imediato incentivo à leitura, que auxilia no desenvolvimento das linguagens, entre as quais se inclui a matemática, até a desejada interdisciplinaridade, já que a literatura pode dialogar com todo o universo do conhecimento, desde o imaginário do mundo medieval, inscrito nas páginas de &lt;em&gt;O Guarani&lt;/em&gt;, de José de Alencar, até a fenomenologia de Husserl, vislumbrada por Machado de Assis na novela &lt;em&gt;O Alienista&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nenhum livro oferece isso por si só. A palavra no papel é uma literatura em potencial que só se realiza pelo olhar do leitor. Sem a força de milhares e milhares de leituras, ao longo de mais de três séculos, Dom Quixote não teria saltado das páginas de Cervantes, com a ubiqüidade de um mito vivo, capaz de imortalizar seu autor para além da literatura. Sem a leitura que dá vida à escrita, o romance &lt;em&gt;Dom Quixote&lt;/em&gt; seria um enclave de mofo para o repasto das traças numa estante qualquer. Cervantes ou Shakespeare são o que são por que foram lidos — louvados e também criticados. É por resistir a esse confronto com a crítica ao longo do tempo que um livro se torna clássico. E só quando se torna minimamente clássico, capaz de alguma perenidade, é que o livro pode ser imposto aos outros — leia-se “alunos” — como leitura obrigatória. Afinal, todo ato de leitura deveria ser soberanamente livre, mas se é inevitável que seja compulsório, então, que o seja com base em razões de ordem objetiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nisso que reside o mais grave efeito dessa derrama de goianos no vestibular. Ela significa a desmoralização da literatura. É inconcebível que um escritor seja adotado em escolas sem que sua obra tenha uma razoável — e confiável — fortuna crítica. Se até a ciência se faz com paradigmas intersubjetivamente construídos pela comunidade científica (já que nem sempre as verdades se lhe apresentam cristalinas e é necessário construí-las), o que dizer da literatura, em que a subjetividade é sempre a essência? Quando se adota um livro de autor goiano não consagrado, a primeira crítica que surge a respeito dele é exatamente aquela encomendada pelo suplemento &lt;em&gt;Vestlivros&lt;/em&gt; do jornal &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt;. Ainda que essa obra seja esteticamente uma lástima e só tenha defeitos, o professor contratado pelo jornal jamais irá escrever a verdade sobre ela. Sua pena é de aluguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, para o aluno, aquela crítica venal e muitas vezes tola do &lt;em&gt;Vestlivros&lt;/em&gt; será a única verdade disponível, já que o autor goiano não existe em nenhum outro livro, a não ser naqueles que ele mesmo publica e na pena desses exegetas de aluguel que escrevem resenhas caça-níqueis por ocasião do vestibular. Daí o inusitado interesse do jornal &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt; em assumir o comando dessa insana campanha dos escritores goianos contra a Universidade Federal de Goiás, ao longo de uma série de sofismas em forma de reportagens. A exemplo dos escritores goianos, &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt; também está advogando em causa própria — quanto mais goianos houver no vestibular, mais dependentes do &lt;em&gt;Vestlivros&lt;/em&gt; os vestibulandos serão. Que um jornal tenha esse interesse mercantil, entende-se. Que a intelectualidade o encampe é deplorável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse é o ponto mais grave da adoção de goianos no vestibular. Quando o doutor em letras José Fernandes interpreta de um modo completamente errado o conto “A Ceia de Aninha”, do livro &lt;em&gt;A Friagem&lt;/em&gt;, de Augusta Faro, como é que o atribulado vestibulando da Federal ou o mal-pago professor da escola pública irão perceber que essa é apenas uma das infinitas sandices que ele escreve? A autoridade de um doutor em letras já é suficiente para eles imaginarem que ali está a verdade. E o referendo do maior jornal do Estado torna essa verdade inquestionável. Ainda que desconfiem daquela mentira travestida de ciência, só teriam coragem de contestá-la se dispusessem do contraponto de outras críticas sobre o mesmo livro. Daí a importância vital de só se adotarem nas escolas e no vestibular livros que já tenham passado pelo crivo de vários olhares diferentes. A fortuna crítica evita o infortúnio ético — a diversidade do diálogo crítico impede o monólogo da charlatanice intelectual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Universidade Federal de Goiás precisa rever, de fato, os seus critérios de adoção de livros no vestibular. Não para impor mais goianos caça-níqueis sobre vestibulandos indefesos e, sim, para tentar coibir a indústria do resumo e da exegese de aluguel que fazem da literatura no vestibular mais um ramo de negócio na educação. Adotar um livro da literatura goiana a cada ano no vestibular é a contribuição justa que a UFG deve a Goiás — e ela está cumprindo esse dever. Querer mais do que isso é advogar em causa própria e — ao contrário do que tentou negar um enfático Miguel Jorge no encontro com a reitora — é, sem dúvida, fazer das escolas um aterro sanitário para a desova de livros goianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os escritores goianos só não percebem o exagero de sua proposta — ao pedir a inclusão de quatro livros seus no vestibular — porque parecem não saber a diferença entre os vários níveis de escolaridade e confundem vestibulando com estudante de letras. O genérico aluno de 2º grau, que vai fazer computação, medicina, física e uma infinidade de outros cursos, precisa do diálogo de uma literatura universal, não do monólogo de uma literatice particular. Estudo de literatura goiana, quando muito, só para estudante de letras. Na universidade, sim, pode ser defensável a liberação das drogas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Publicado no &lt;em&gt;Jornal Opção&lt;/em&gt;, no início de maio de 2001) &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3489666274423755278-4562769978991268308?l=puericulturagoiana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/feeds/4562769978991268308/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3489666274423755278&amp;postID=4562769978991268308&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/4562769978991268308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/4562769978991268308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/2008/10/goianos-no-vestibular-da-causa-prpria.html' title='Goianos no vestibular: da causa própria à avacalhação'/><author><name>José Maria e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02040972524294094501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3Om5M5UcQFo/TLRmSBGUhsI/AAAAAAAAAEU/iqGStm5jToQ/S220/Papagaio.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3489666274423755278.post-7766701047417867954</id><published>2008-10-02T14:11:00.001-07:00</published><updated>2008-10-24T09:11:25.941-07:00</updated><title type='text'>Literatura goiana: a estética do ressentimento</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Vítima de um daltonismo mental que os impede de enxergar a realidade, escritores goianos querem obrigar as faculdades de letras a transformar as escolas em aterro sanitário para a desova de suas obras&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A indústria do livro didático no Brasil surgiu na década de 30, com o início da laicização do ensino, deflagrada por intelectuais do porte de Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e Lourenço Filho. Desde então, o livro didático tornou-se autoridade máxima para alunos e professores, por mais que a pedagogia construtivista tente ruir a sua flagrante hegemonia na sala de aula. O livro didático gerou até mesmo uma descendência direta — as obras paradidáticas, quase sempre de ficção ou poesia. Mas boa parte da produção didática e paradidática que se usa nas escolas brasileiras é puro lixo. E quem primeiro percebeu essa tragédia não foi nenhum pedagogo, mas um escritor — o pernambucano Osman Lins. Morto precocemente em 1978, aos 54 anos, Osman Lins era um intelectual de perfil renascentista, quase um Umberto Eco dos trópicos. Entendia de tudo um pouco e foi esse saber universal que colocou a serviço da educação numa obra de fundamental importância — &lt;em&gt;Do Ideal e da Glória: Problemas Inculturais Brasileiros&lt;/em&gt;, resultado de vários artigos publicados na imprensa e de sua curta docência na Faculdade de Letras de Marília, interior de São Paulo, como professor de literatura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os artigos arrolados no livro, constam duas séries de críticas aos livros didáticos de português, analisados em dois tempos — 1965, quando a “confraria do virginal abrigo” imperava nos livros de língua portuguesa, e 1976, quando a indústria cultural já tinha implantado a “Disneylândia pedagógica” no ensino. Com base nessa autoridade de analista arguto da educação, Osman Lins reivindicava, na época, que se incluísse no currículo das escolas o estudo de autores brasileiros contemporâneos, ao mesmo tempo em que alertava para o risco de se instituir a figura do “camelô das letras” — o escritor que empurra seu próprio livro de sala em sala de aula, prática comum em Goiás, como confessa Augusta Faro. Agora, seguindo caminho completamente inverso ao do escritor pernambucano, alguns escritores goianos resolveram deflagrar uma campanha pública em defesa da imposição de seus livros no vestibular da Universidade Federal de Goiás e de outras instituições de ensino superior. (Entenda-se como “escritores goianos”, no contexto deste artigo, os chefes ou áulicos de igrejinhas que sempre estão na mídia.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No jornal &lt;em&gt;O Popular&lt;/em&gt; de quinta-feira (26/04/2001), os escritores Miguel Jorge, Yêda Schmaltz, Antônio José de Moura, Delermando Vieira e Augusta Faro fizeram a defesa da literatura goiana, que ingenuamente chamam de “literatura brasileira feita em Goiás”, e cobraram da UFG a adoção obrigatória de autores goianos entre os livros indicados para o vestibular. O leitor que se deu ao trabalho de acompanhar todo o debate só acredita que ele foi protagonizado por escritores porque a repórter que coordenou a mesa-redonda informa a biografia de cada um deles. Caso contrário, ficaria com a impressão de ter lido uma algaravia de colegiais na hora do recreio. Mas não poderia ser diferente. Nenhum dos autores em questão, nem mesmo o escritor, crítico e professor José Fernandes (que publicou um alinhavo mental na edição do &lt;em&gt;Popular&lt;/em&gt; de 21 de abril sobre o assunto), faz qualquer idéia razoável sobre o que vem a ser educação. Só se lembram da escola como um possível mercado para seus livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esse não é um privilégio exclusivamente goiano — faz parte da tradição brasileira criar escritores alienados. É o que se depreende de um estudo de Antônio Luiz Machado Neto, sociólogo completamente esquecido no mundo acadêmico, talvez por ter-se inspirado no filósofo espanhol Ortega y Gasset, tido como um conservador. Machado Neto legou para a cultura brasileira um estudo de peso, — a &lt;em&gt;República das Letras&lt;/em&gt; (Editora da USP, 1973, 256 páginas), — em que procura radiografar, sociologicamente, a geração de intelectuais brasileiros que pontificou entre 1870 e 1930. Casta privilegiada numa massa de analfabetos, a geração de Olavo Bilac e Coelho Neto não se sentia brasileira, mas helênica, fazendo-se exótica para melhor distanciar-se da realidade. A Academia Brasileira de Letras era o Olimpo desses primeiros ídolos de massa brasileiros, que se davam a conhecer aos devotos nas livrarias, jornais e cafés da corte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura abria aos literatos não só os salões da corte e as páginas dos jornais, mas até mesmo a política e o serviço público, que, tradicionalmente, tem sido um cabide de emprego de “poetas e escritores”, para usar a tola diferenciação tão cara aos escritores goianos. E um intelectual como Olavo Bilac sabia desfrutar desse prestígio, vendendo até sabonete com os seus versos, nas quadrinhas que escrevia para o rádio, veículo então incipiente, a ponto de ter seu nome grafado entre aspas. Entretanto, quando Londres e Nova York, na virada do século, passam a disputar com Paris a condição de centro gravitacional do Brasil, os bacharéis vão perdendo lugar para os técnicos, e as famílias nobres, cansadas de advogados boêmios, versados em tísica e oratória, começam a mandar seus filhos para as faculdades politécnicas da Inglaterra e Estados Unidos. Sousândrade e Euclides da Cunha, mesmo não tendo estudado em Londres e Nova York, já são filhos dessa nova mentalidade. Até Lima Barreto, apesar da fama de discriminado, não ingressou num curso de direito, mas no de engenharia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O culto à técnica que lançaria raízes no país — tão pernicioso quanto o culto ao diploma da República dos Bacharéis — encontrou a resistência de um humanismo autêntico, ainda que raro, capaz de forjar uma espécie de síntese do mundo latino com o mundo anglo-saxão, algo que já se percebia em figuras tão díspares quanto Machado de Assis e Mário de Andrade e vai-se continuar percebendo em Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Mesmo fracassando na economia e na política, cada vez mais submersas na dependência e na corrupção, o Brasil consolidou uma cultura mundialmente respeitável em quase todas as áreas, da literatura ao cinema, passando pela educação e a sociologia. Se não chega a ser central no mundo, a civilização brasileira ao menos ocupa um lugar honroso na periferia dele — não de todo reconhecido por culpa da própria intelectualidade brasileira, que só vê o país por meio da apologia eurocêntrica ao carnaval e ao futebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Deserto de Idéias&lt;/strong&gt; — Todavia, as conclusões que o estudo de Machado Neto inspira não servem para Goiás. Até o século passado, Goiás era praticamente um deserto de idéias e seus escritores tinham na literatura um mero passatempo. Prova disso é que o maior deles, o poeta Félix de Bulhões, só se salva por uns dois poemas, entre as meias dúzias de escritos que totalizam sua obra literária. Mesmo Hugo de Carvalho Ramos — espécie de verdadeiro “Pai Fundador” da literatura goiana — não teve tempo de consolidar uma obra literária que pudesse ir além do mero documento, apesar dos elogios que recebeu de Mário de Andrade e M. Cavalcanti Proença. Aqui, a República das Letras é um fenômeno tardio, por isso, não vingou. Ela só surgiu quando a geração de Bernardo Élis e Eli Brasiliense alcança sua maturidade, exatamente no momento em que a literatura estava perdendo terreno para o cinema como arte de massas. O máximo que os escritores goianos alcançaram foi o serviço público — não tiveram a expressão política e social dos escritores da corte analisados por Machado Neto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado dessa inexistência de passado sólido é que leva a literatura goiana à confusão do presente — por falta de tronco em que se sustentar, qualquer graveto da galharia de escritores atuais quer ser a própria raiz de toda a cultura goiana. Irônico é que os escritores goianos querem que os outros — leia-se “órgãos públicos” — fundem essa raiz, ainda que a custa de projetos estapafúrdios, que vão desde a criação da “maior biblioteca do mundo” (proposta de Antônio José de Moura a Iris Rezende, segundo ele o único homem capaz de criá-la), até o “museu do artista” de Miguel Jorge, uma versão “estética” da sala dos milagres de Trindade. Agora, o novo projeto da &lt;em&gt;intelligentsia&lt;/em&gt; literária local é se tornar canônica nas escolas — os autores goianos consideram um absurdo a não-inclusão de seus nomes entre as obras literárias que vão servir de referência nos vestibulares da Universidade Federal de Goiás até 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a indignação dos escritores goianos não se justifica. Independentemente de estarem ou não na lista, seus livros têm sido adotados com regularidade em todos os vestibulares das principais universidades e faculdades locais. A razão de não terem sido incluídos na lista de referência é apenas estratégica e não discriminatória. A lista da UFG relativa à história de mais de quatro séculos de literatura brasileira contempla pouco mais de 100 obras. Já a literatura goiana sozinha, mesmo tendo apenas um século de existência, transformaria a lista dos indicáveis numa interminável lista telefônica. Simplesmente os professores da Faculdade de Letras da UFG teriam de incluir pelo menos uma obra de cada um dos quase 500 escritores filiados à UBE, caso não quisessem passar todo o ano letivo ouvindo protestos de escritores que se sentiriam prejudicados com a seleção. Sem contar que até mesmo o autor beneficiado poderia querer mudar o livro escolhido, tentando vender alguma obra encalhada, com a prática lobista típica das letras locais. A decisão de deixar em aberto a inclusão das obras goianas, por parte dos professores das Faculdades de Letras, decorre da própria imaturidade de muitos escritores locais, que continuam meninos resmungões mesmo beirando os 70 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o problema que os escritores goianos estão criando com as universidades deve-se estender às livrarias. Miguel Jorge se queixa no debate de que o mercado livreiro local não abre espaço para o autor goiano e indaga: “Ora, não custa nada às livrarias organizar as obras em uma estante e colocá-las à vista. O que custa isso?”. Custa dinheiro — poderia responder um Silva Jardim, da família capitalista de &lt;em&gt;Nos Ombros do Cão&lt;/em&gt;, caso os personagens de Miguel Jorge fossem personagens de fato e não zumbis literários. Qualquer escritor tem a obrigação de saber o mínimo de economia, uma vez que os personagens de seus romances também habitam esse mundo físico, não são perispíritos. A estante do escritor goiano teria, sim, um custo adicional para as livrarias, como tem um custo adicional a meia-entrada para estudantes nos espetáculos culturais, responsável pelo encarecimento dos ingressos na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O volume anual de produção das editoras brasileiras é dezenas de vezes superior ao espaço físico de exposição de qualquer uma das maiores livrarias de Goiânia. Nem mesmo as grandes cadeias de livrarias do mundo, como a Fnac, conseguem manter todos os seus livros à vista do leitor. Daí, os catálogos eletrônicos para se encomendar a obra que não está exposta. Só autores escancaradamente comerciais, como Paulo Coelho, ficam em exposição permanente nas lojas, porque a celeridade com que vendem rentabiliza o espaço que ocupam. As livrarias goianas poderiam abrir um espaço para o autor goiano, como já se fez na Livraria Vozes, por exemplo, mas, para isso, seria preciso que o escritor goiano fosse mais maduro e não se tornasse um transtorno para os livreiros. Se a livraria abrir suas portas para um goiano, e anunciar isso, terá que abrir para todos, porque não suportará as reclamações diárias de escritores se dizendo discriminados. E não há livraria em Goiânia com espaço suficiente para expor sequer os livros que gráficas, editoras e órgãos públicos locais desovam no mercado anualmente, sem a mínima preocupação com a qualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, o escritor goiano, além de ter facilidades imensas de publicação, é extremamente privilegiado nas universidades. Raríssimas universidades brasileiras dão tanta importância à provinciana literatura de seus Estados como a UFG vem dando à literatura regional, a ponto de abrir coleções em sua editora destinadas a publicar exclusivamente autores goianos, fazendo muito mais do que sua obrigação. Além disso, a professora Darcy Denófrio — herdeira do profícuo trabalho crítico de Gilberto Mendonça Teles, o que há de mais sério até hoje na história da literatura goiana — dedicou toda a sua carreira docente na UFG a analisar a obra de escritores locais. E Moema Olival, ainda que sem a mesma eficiência de Darcy Denófrio, chegou a orientar teses de mestrado a respeito da obra de escritores goianos, a começar por Bernardo Élis, examinado por ela própria. Portanto, as queixas dos escritores goianos em relação à universidade são extremamente injustas. A obra de Miguel Jorge, por exemplo, já foi motivo de pelo menos duas teses de mestrado na Universidade Federal de Goiás, apesar de mal merecer uma resenha de jornal. E no Cantinho de Leitura da Secretaria Estadual de Educação há obras de autores goianos, escolhidas por professoras da UFG.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Formação Precária&lt;/strong&gt; — Essa incapacidade do autor goiano de enxergar os fatos objetivamente decorre, sem dúvida alguma, de sua precária formação intelectual. No debate proposto pelo &lt;em&gt;Popular&lt;/em&gt;, Miguel Jorge, Yêda Schmaltz, Antônio José de Moura, Delermando Vieira e Augusta Faro não conseguiram alinhavar um argumento sequer em defesa da literatura goiana. Áreas do conhecimento fundamentais para qualquer escritor, como a história, a filosofia, a sociologia e a antropologia, parecem absolutamente estranhas ao escritor goiano. Apenas Antônio José de Moura tentou refletir com um pouco mais de profundidade sobre a indústria do livro, mesmo assim, não conseguiu ir muito além dos lugares-comuns que Augusta Faro foi buscar aos seus tempos de colegial. Delermando Vieira foi o único que conseguiu perceber que o escritor goiano não tem do que se queixar, é um privilegiado, mas não tirou disso nenhuma conclusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ponto de vista cultural, os escritores goianos, em sua maioria, beiram o autismo. No mínimo, revelam um grave daltonismo mental, incapaz de atentar para os matizes da realidade, o que leva esses escritores a fazer do mundo a cidadela do próprio umbigo. Yêda Schmaltz, por exemplo, para sustentar a inclusão de goianos no vestibular, afirma: “Os mineiros incluem seus autores não só nos vestibulares, mas em todos os outros concursos”. Será possível que uma escritora com 40 anos de vida literária ainda não conseguiu perceber que não há termo de comparação entre a incipiente literatura goiana e a legendária literatura mineira, que se confunde com a própria cultura do país, celeiro de gênios que é? Escritores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, bem como dos Estados nordestinos em geral, são obrigatórios em qualquer vestibular de qualquer canto do Brasil, porque esses Estados simplesmente são os fundadores não só da literatura, mas de toda a cultura brasileira. Quando Goiás mal saía das botas do Anhangüera, a Bahia já ostentava Antônio Vieira e Gregório de Matos e Minas já dispunha de Aleijadinho e Mestre Ataíde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se dependesse dos escritores goianos, toda a literatura brasileira seria excluída das listas de livros de vestibulares para dar lugar apenas à literatura goiana, como se depreende dessa afirmação de Miguel Jorge: “Conheço uma pessoa que fez vestibular no Mato Grosso e se deparou com uma relação de livros cujos autores eram todos do Mato Grosso. Não havia ninguém de fora. Por que Goiás age dessa forma? Com qual intenção isso está sendo feito?” Ora, se esse &lt;em&gt;ouvi-dizer&lt;/em&gt; de Miguel Jorge merece alguma credibilidade, o que é muito pouco provável, essa universidade mato-grossense deveria ser condenada — com veemência — pelo seu bairrismo exacerbado e não tomada como exemplo para a Universidade Federal de Goiás. Ou será que o festejado escritor goiano habita de modo tão inconsciente o mundo das palavras que até hoje não atentou para as raízes da palavra universidade? Transformar uma universidade em departamento de uma literatura local é ter uma visão de mundo infinitamente mais estreita do que a da injustiçada Idade Média, época em que nasceram as universidades já com o espírito universalista que marca sua trajetória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Especificidade Goiana&lt;/em&gt; — Outro argumento que os escritores goianos esgrimem é o de que não existe literatura goiana, mas literatura brasileira feita em Goiás. Todos eles, sem exceção, repetem essa cantilena e Antônio José de Moura, mais ambicioso intelectualmente, tenta discorrer sobre o assunto com mais densidade, argumentando que “ninguém chama de literatura carioca o trabalho de José Rubem Fonseca, que reflete bem a violência do Rio”. O que Moura não percebe é que, a par dos grandes autores cariocas, paulistas, mineiros e nordestinos, há uma literatura provinciana nessas regiões (como a de Stella Leonardos no Rio), que, se fosse mencionada no resto do país, teria que vir, obrigatoriamente, com o rótulo de literatura carioca, paulista, mineira ou nordestina, porque seus autores, não alcançando a universalidade de um Mário de Andrade ou de um Drummond, ficariam completamente perdidos no contexto da literatura brasileira, caso fossem citados sem esse rótulo. Mesmo no caso de Goiás, ninguém cogita de chamar a prosa de José J. Veiga de literatura goiana, porque esse autor, dada à universalidade de suas obras, já foi incorporado ao patrimônio nacional como um mestre da literatura fantástica. O mesmo se pode dizer da poesia de Afonso Félix de Souza, que, apesar de menos popular do que a prosa de Veiga, também é um patrimônio nacional da Geração de 45.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se os escritores goianos tivessem algum embasamento filosófico e fossem capazes de alinhavar um pensamento com a mínima disposição lógica, perceberiam que o critério geográfico também é válido para definir uma literatura. Qualquer leitor reconhece que há uma abissal diferença entre Graciliano Ramos e Érico Veríssimo, ambos indiscutivelmente universais, tanto que apreciados por pessoas dos mais diferentes países mesmo não sendo autores caça-níqueis. E parte da diferença entre a obra de ambos decorre do fator geográfico. Vem do fato crucial de Graciliano Ramos ser do Nordeste, região oprimida pelas agruras da seca, e Érico Veríssimo ser dos Pampas, região marcada pela índole guerreira. Reconhecer essa especificidade da literatura desses autores e chamar suas obras de romance nordestino ou romance gaúcho, como freqüentemente se faz, em nada diminui a universalidade de ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o único critério de demarcação de uma literatura fosse o idioma em que é escrita, como parecem querer os escritores goianos, então, toda a obra de crítica literária do Ocidente teria de ser revista. Se não existe literatura goiana, mas literatura brasileira feita em Goiás, então, por um silogismo mais do evidente, também não poderá existir literatura brasileira e, sim, literatura de língua portuguesa feita no Brasil. Continuando o raciocínio que sempre falta nos autores goianos, também não se poderia falar de literatura inglesa ou literatura norte-americana, mas apenas de literatura inglesa feita na Inglaterra e literatura inglesa feita nos Estados Unidos. Mas nem é preciso ir tão longe para contestar o precário pensamento dos autores goianos. A própria Yêda Schmaltz se encarrega de desmentir a si mesma e a seus pares. Pouco depois de negar a possibilidade de uma literatura goiana, Yêda Schmaltz chega a incorrer num determinismo geográfico mais ferrenho que o do historiador árabe Ibn Khaldun: “Considero maravilhoso morar e escrever em Goiás. Se eu não morasse aqui, talvez não teria o texto que tenho”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É provável mesmo que se tivesse permanecido em Pernambuco, onde nasceu, Yêda Schmaltz seria diferente. Não como poeta, mas como leitora de sua própria obra. A tradição literária que teria atrás de si mais a presença gigantesca de um João Cabral de Melo Neto, a impediriam, sem dúvida, de avaliações tão megalômanas como a que se segue, referindo-se aos autores locais: “Ninguém aqui tem a perder com relação a outros autores brasileiros. Inclusive, são melhores que muitos publicados por excelentes editoras”. Quem vê Yêda falando imagina que as editoras nacionais nunca se dignaram a olhar para a literatura local e que é exclusivamente por culpa delas que os livros de autores goianos não são lidos dentro e fora de Goiás. Ora, praticamente todos os autores goianos que têm alguma coisa a oferecer à literatura brasileira ou ao mercado livreiro — seja pela qualidade, seja pela hegemonia local — já foram descobertos pelas grandes editoras, sem contar os casos já clássicos de Bernardo Elis, Cora Coralina e José J. Veiga, este último figura canônica nas escolas de todo o país. Se Miguel Jorge, por exemplo, que publica livros por grandes editoras, continua inexistindo fora de Goiás, não é por culpa do mercado editorial, mas de sua própria obra, que só consegue leitores compulsórios, quando adotada em escolas locais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a explicação que o próprio Miguel Jorge dá para esse fato seria risível se não fosse cabotina. Depois de reconhecer que os grandes jornais têm vínculo com as grandes editoras, Miguel Jorge fala da estratégia que teria de usar caso quisesse um reconhecimento nacional: “Em breve será publicado um livro meu. O editor me disse que teria então de trabalhar o nome do Miguel Jorge. E sabe como isso é feito? É preciso que eu busque apoio no meu Estado para conseguir ter o nome trabalhado. Eu não vou fazer isso. Penso que, se eu tiver merecimento como escritor e as pessoas pensarem que o meu trabalho tem qualidade, meus livros é que devem abrir o caminho”. A explicação é risível porque condiciona toda a glória literária à capacidade do escritor de associar-se ao poder estatal, como se estivéssemos no comunismo stalinista; mas também é cabotina porque ninguém mais do que Miguel Jorge é especialista em política literária — a verdadeira praga da literatura goiana, que leva o autor a perder mais tempo em redações de jornais e bastidores de órgãos públicos, fazendo intriga e lobismo, do que em casa ou em bibliotecas lendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso atentar para essas afirmações de Miguel Jorge porque a vigência intelectual que ele adquiriu no Estado faz dele o emblema máximo de todos os vícios da cultura goiana. Mesmo às vésperas de completar 68 anos de vida e cerca de 40 de literatura, Miguel Jorge demonstra a mesma insegurança que muito atrapalhou Bernardo Elis por toda a vida. A exemplo de Bernardo, até hoje Miguel Jorge não adquiriu uma visão ontológica de sua própria obra e parece ter dúvidas sobre o que ela realmente é. Declarando seu amor à literatura e a Goiás, Miguel Jorge afirma: “Recebi vários convites para me mudar para São Paulo ou Rio de Janeiro com a observação de que, nessas cidades, estouraria”. Ora, um dos argumentos utilizados unanimemente por ele e por todos os seus críticos na hora de defender o estudo de seus livros nas escolas é o de que ela é uma obra de vanguarda, sintonizada com as conquistas mais modernas da literatura contemporânea. Pois bem, em que país do mundo uma obra do gênero estouraria a não ser por motivos fora de qualquer lógica de mercado? Se Miguel Jorge imagina que sua obra tem um apelo comercial tão grande, então é porque intimamente discorda de seus críticos e de si mesmo e toda a sua vida literária não passa de uma fraude que esconde uma frustrada vocação para Paulo Coelho. Estourar não é verbo que um escritor sério utilizaria para conjugar a própria obra, e se Miguel Jorge o faz é porque o aparente vanguardismo de seus textos não nasce de uma necessidade íntima, mas do imperativo de agradar professores e alunos de letras — o único público à disposição do escritor goiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, Miguel Jorge parece ter formado uma inequívoca herdeira — a escritora Augusta Faro, premiada pelo elogio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, dono de uma prosa refinadamente literária e de uma cultura marcadamente universal. À parte o equívoco do editor especial de &lt;em&gt;Veja&lt;/em&gt;, que ainda está a merecer um exame detalhado, basta notar que Augusta Faro é mais ousada do que seus pares e arrisca alguns palpites temerários. Citando o Conselho Estadual de Cultura, em quem reconhece uma autoridade analítica, Augusta Faro afirma que os professores que fizeram a lista de livros do vestibular, em sua maioria, “são de outros Estados e caíram aqui de pára-quedas”. Mesmo um crítico ferrenho do ensino superior não pode deixar de reconhecer que os critérios de titulação e contratação de professores na universidade pública são muito menos aleatórios do que os critérios da fama nas literaturas de província. O professor Manoel de Souza e Silva, por exemplo, que na avaliação de Faro seria um “pára-quedista”, é autor de um livro publicado pela Editora da USP, &lt;em&gt;Do Alheio ao Próprio&lt;/em&gt;, sobre a poesia em Moçambique. Quando rechaça esse olhar de fora, a princípio muito mais isento, Augusta Faro parece trair um recôndito desejo de que sua obra e a de seus pares seja examinada apenas pela crítica compadresca da província.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nada disso se compara com a total irresponsabilidade com que os escritores tratam a escola e tentam fazer dela o aterro sanitário para a desova de suas obras. A relação entre literatura e escola se tornou tragicamente promíscua e vai muito além da questão específica da lista de indicados no vestibular. No debate promovido pelo Popular, Yêda Schmaltz, corroborada por Miguel Jorge, chega a defender que a literatura goiana seja estudada já no ensino fundamental, como se no currículo da escola básica houvesse a disciplina de literatura brasileira para contemplar esse tipo de estudo. Pelo que se percebe, autores que parecem não saber o que é um currículo escolar querem impor-se à força como matéria obrigatória do ensino oficial. Caso consigam seu intento, o estudante indefeso será o destinatário único e compulsório da doença que tomou conta da literatura goiana — a verdadeira disenteria livresca com lançamentos quase semanais. Pior do que eles, só a presença intelectual do próprio autor corroborando a obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leia também o artigo: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;a href="http://puericulturagoiana.blogspot.com/2008/10/goianos-no-vestibular-da-causa-prpria.html"&gt;Goianos no Vestibular: Da Causa Própria à Avacalhação&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nota da UFG explica lista do vestibular&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal de Goiás (UFG), esclarece:&lt;br /&gt;a) a lista que serve de referência para a indicação de obras literárias aos vestibulares foi elaborada por uma equipe de professores de literatura da UFG, UCG, UEG, Associação Educativa Evangélica e Faculdades Anhangüera, Fesurv e Objetivo;&lt;br /&gt;b) desde maio de 2000, deu-se ampla publicidade a essa lista, inclusive através da Internet;&lt;br /&gt;c) a UFG tem mantido o compromisso de incluir autores goianos em seus vestibulares, conforme lista abaixo;&lt;br /&gt;d) mantido o compromisso, o entendimento é que uma lista fechada de autores goianos poderia impedir que os novos lançamentos também fosse considerados para adoção no vestibular;&lt;br /&gt;e) portanto, o fato de autores goianos não constarem da referida lista é, tão somente, uma forma de deixá-la aberta, também, para novos lançamentos, lembrando que obras premiadas em concursos já foram adotadas;&lt;br /&gt;f) compreendemos que esta é uma questão natural e essencialmente polêmica, uma vez que, além de “lobbies de editoras e livrarias”, também envolve outros interesses;&lt;br /&gt;g) em razão do contido no item anterior (lembrando que só o Vestibular 2001 da UFG teve mais de 31 mil candidatos), entendemos que o vestibular não é uma grande festa de consumo e que os vestibulandos não devem ser considerados como “consumidores”, como um grande mercado, à mercê da ação desses lobbies;&lt;br /&gt;h) esta instituição está aberta ao diálogo com as entidades representativas da literatura goiana, para esclarecer, diretamente, a questão, mantida a sua autonomia didático-pedagógica;&lt;br /&gt;i) desde 1990, as seguintes obras de autores goianos foram adotadas para o vestibular da UFG:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1990&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Tô Vivu&lt;/em&gt;, de Maria Avelina de Carvalho&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Dias de Fogo&lt;/em&gt;, de Antônio José de Moura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1991&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;As Contas do Rosário&lt;/em&gt;, de Modesto Gomes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1992&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Seleta&lt;/em&gt;, de Bernardo Élis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1993&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Amaro Mar&lt;/em&gt;, de Darcy França Denófrio&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Antologia do Conto Goiano I&lt;/em&gt;, de Darcy Denófrio e Vera Maria T. Silva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1994&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Relações&lt;/em&gt;, de Heleno Godoy&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Antologia do Conto Goiano I&lt;/em&gt;, de Darcy Denófrio e Vera Maria T. Silva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1995&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Relações&lt;/em&gt;, de Heleno Godoy&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Antologia do Conto Goiano II&lt;/em&gt;, de Vera Maria T. Silva e Maria Zaira Turchi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1996&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;A Centopéia de Neon&lt;/em&gt;, de Edival Lourenço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1997&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Avarmas&lt;/em&gt;, de Miguel Jorge&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;O Relógio Belisário&lt;/em&gt;, de José J. Veiga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1998&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Santa Rita&lt;/em&gt;, de Carmo Bernardes&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Meu Tio-Avô e o Diabo&lt;/em&gt;, de Bariani Ortêncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1999&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Chegou o Governador&lt;/em&gt;, de Bernardo Élis&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Tropas e Boiadas&lt;/em&gt;, de Hugo de Carvalho Ramos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2000&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;Candeia de Canto&lt;/em&gt;, de Manoel Bueno Brito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2001&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;A Friagem&lt;/em&gt;, de Augusta Faro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2002&lt;br /&gt;* &lt;em&gt;A Viagem das Chuvas e Outros Contos&lt;/em&gt;, de Jesus de Aquino Jayme&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Goiânia, 25 de abril de 2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Profª. Iara Barreto&lt;br /&gt;Pró-Reitora de Graduação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicado no &lt;em&gt;Jornal Opção&lt;/em&gt;, em abril de 2001)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3489666274423755278-7766701047417867954?l=puericulturagoiana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/feeds/7766701047417867954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3489666274423755278&amp;postID=7766701047417867954&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/7766701047417867954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3489666274423755278/posts/default/7766701047417867954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://puericulturagoiana.blogspot.com/2008/10/literatura-goiana-esttica-do.html' title='Literatura goiana: a estética do ressentimento'/><author><name>José Maria e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02040972524294094501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3Om5M5UcQFo/TLRmSBGUhsI/AAAAAAAAAEU/iqGStm5jToQ/S220/Papagaio.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
